O desmatamento e a degradação ambiental causaram mudanças climáticas que levaram a Amazônia a um aquecimento médio nos últimos anos que fizeram a floresta perder até metade da capacidade de reciclar água. Esse é apenas um dos problemas e preocupações dos cientistas apontados no relatório “Mudanças Climáticas: Impactos e Cenários para a Amazônia”, produzido por órgãos de pesquisa com base em dados do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), vinculado à ONU (Organização das Nações Unidas).
Segundo o estudo, a influência humana é mais decisiva do que causas naturais nas mudanças sentidas na Amazônia. “Devido ao desmatamento atual, que já cobre quase 20% da Amazônia brasileira, e a degradação florestal que pode estar afetando uma área muito maior, a Amazônia já perdeu de 40% a 50% da sua capacidade de bombear e reciclar a água”, afirma o estudo.
O trabalho é assinado pelos pesquisadores José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), e Carlos Souza Júnior, do Imazon.
“É como se o coração de uma pessoa tivesse a metade de suas células mortas ou doentes e, portanto, não conseguisse mais impulsar o sangue pelo corpo todo. As partes do corpo que não recebem sangue ou que recebem menos ou mais lentamente morrem. Isso é o que aguarda os pampas úmidos argentinos e as terras atualmente mais produtivas do Sudeste e do Centro-Oeste do Brasil, além da Bacia do Prata”, completa.
Temperatura aumenta
Segundo os dados coletados na Amazônia, entre 1949 e 2017 houve um aumento médio na temperatura entre 0,6 ºC a 0,7 ºC. “O ano de 2017 [foi] o mais quente desde meados do século 20.
“Pós-doutor em modelagem climática pela Nasa (a agência espacial norte-americana) e pela Universidade Columbia, José Marengo explica que o aumento médio apontado pode até parecer pequeno para um leigo, mas já é suficiente para causar impactos. “Vemos o que aconteceu no fenômeno El Niño, com muita seca em 2016 e grande concentração de queimadas”, conta.
Naquele ano, a região Norte sofreu com uma das maiores secas de sua história recente. O rio Acre, por exemplo, atingiu seu menor nível desde que começaram as medições, em 1970. Várias cidades decretaram emergência.
“Talvez a população se adapte, ligando um ar-condicionado, se refrescando mais com a água. Mas a vegetação não consegue: ela morre e queima. Boa parte do material que agora está queimando pode ter sido material que não queimou em 2016”, explica Marengo.
Somente em agosto, as queimadas na Amazônia atingiram uma área equivalente a 4,2 milhões de campos de futebol, o maior valor para o mês desde 2010. Os municípios mais desmatados são aqueles que registram maior número de focos de incêndio.
Marengo diz que as queimadas na Amazônia contribuem para aumentar da emissão e concentração de CO2 na atmosfera —o que leva ao aquecimento global. “Todas as medidas propostas pelo Acordo de Paris visam reduzir a emissão do CO2. A vegetação que queima aumenta a concentração de gases para o efeito estufa. Um detalhe é que, neste ano, as queimadas não têm a ver com motivos ambientais”, diz.
Repórter Ceará com UOL (Foto: Rogério Assis/Greenpeace)
