Um novo relatório internacional sobre desigualdade econômica colocou o Brasil entre os países com maior concentração de renda do planeta. De acordo com a terceira edição do World Inequality Report 2026, elaborado pela rede de pesquisa World Inequality Lab (WIL) e coordenado pelo economista francês Thomas Piketty, o Brasil aparece como o quinto país mais desigual do mundo entre 216 nações e territórios analisados.
O estudo reúne dados tributários, pesquisas domiciliares e informações das contas nacionais para medir a distribuição de renda e riqueza em escala global. Segundo o levantamento, os 10% mais ricos concentram 59,1% de toda a renda nacional, enquanto os 50% mais pobres ficam com apenas 9,3%. Quando o foco é a riqueza acumulada, que envolve patrimônio, imóveis e ativos financeiros, a concentração é ainda maior: os 10% do topo detêm cerca de 70% de tudo o que o país possui, e o 1% mais rico sozinho concentra mais de um terço desse montante.
Esses números colocam o Brasil atrás apenas de países como África do Sul, Colômbia, México e Chile no ranking global de desigualdade. Para os pesquisadores, essa posição reflete uma estrutura histórica marcada por fatores como baixa progressividade tributária, desigualdade de oportunidades educacionais, forte concentração de patrimônio e profundas diferenças regionais.
O relatório reacende debates sobre a real evolução da desigualdade no país. Embora indicadores como o coeficiente de Gini mostrem alguma redução nos últimos anos, resultado de políticas de transferência de renda e melhorias no mercado de trabalho, especialistas ressaltam que essas variações não alteram de forma significativa a estrutura que favorece a concentração no topo da pirâmide social. Assim, mesmo com avanços pontuais, a distância entre ricos e pobres permanece entre as maiores do planeta.
A desigualdade, destacam os autores, vai muito além dos números. Ela impacta diretamente o acesso à educação, saúde, segurança, serviços públicos e mobilidade social, influenciando o potencial de crescimento econômico e a coesão social. A concentração de renda também reduz a capacidade de consumo da maior parte da população e limita investimentos públicos estratégicos, desafios especialmente sentidos em regiões que já convivem com menores índices de desenvolvimento, como amplas áreas do Nordeste, incluindo o Ceará.
Produzido por mais de 200 pesquisadores de diversos países e vinculado à Paris School of Economics, o World Inequality Report tornou-se uma das principais referências mundiais no tema. A edição de 2026 reforça que, sem reformas estruturais e políticas de longo prazo, o Brasil seguirá enfrentando um cenário de grandes contrastes sociais e econômicos.
