A expansão acelerada dos cursos de Medicina no Brasil colocou o país diante de um paradoxo preocupante: ao mesmo tempo em que se amplia o número de vagas e de faculdades, os indicadores oficiais de qualidade revelam um cenário alarmante. Dados recentes do Ministério da Educação (MEC), por meio do Enamed e do Conceito Preliminar de Curso (CPC), mostram que cerca de um terço das faculdades de Medicina avaliadas recebeu notas 1 e 2, consideradas insatisfatórias. Trata se de uma informação escandalosa, que exige reflexão profunda e ação imediata.
Não estamos falando de qualquer formação acadêmica. A Medicina lida diretamente com a vida humana, com decisões que impactam famílias, comunidades e todo o sistema de saúde. Quando cursos que formam médicos não atingem o padrão mínimo de qualidade, o problema deixa de ser educacional e passa a ser uma questão de interesse público e de saúde coletiva.
As avaliações do MEC consideram critérios objetivos: desempenho dos estudantes em exames nacionais, qualificação do corpo docente, infraestrutura para aulas práticas, acesso a hospitais escola, estágios supervisionados e condições pedagógicas gerais. Quando um curso recebe nota 1 ou 2, o diagnóstico é claro: há falhas relevantes na formação oferecida. E, segundo os dados, a maioria desses cursos mal avaliados está na rede privada, enquanto as instituições públicas concentram os melhores desempenhos.
Esse cenário levanta uma pergunta inevitável: estamos diante de entidades que enganam alunos, famílias e, em última instância, a sociedade? Muitos estudantes ingressam nesses cursos com a expectativa legítima de uma formação sólida, investem valores altos, assumem financiamentos e dedicam anos de estudo acreditando que sairão preparados para exercer a Medicina com competência e responsabilidade. A sociedade, por sua vez, confia que esses profissionais estarão aptos a atender nos postos de saúde, hospitais e emergências do país.
O problema não é pontual nem isolado. Ele está ligado a um modelo de expansão do ensino médico que, em muitos casos, priorizou quantidade em detrimento da qualidade. Faculdades abertas em regiões sem estrutura hospitalar adequada, falta de campos de prática, docentes sobrecarregados, precarização do ensino clínico e uma lógica mercantilizada da educação superior ajudam a explicar os resultados ruins. A formação médica exige tempo, rigor, supervisão constante e investimento pesado, elementos que não podem ser tratados como custos a serem reduzidos.
As consequências desse processo são graves. Profissionais mal formados aumentam o risco de erros de diagnóstico, tratamentos inadequados, judicialização da saúde e perda de confiança da população no sistema. Em regiões mais vulneráveis, onde esses médicos costumam atuar, o impacto é ainda maior. Não se trata de estigmatizar estudantes ou profissionais, mas de reconhecer que a falha está na base do sistema formador.
Diante desse quadro, o MEC anunciou medidas de supervisão mais rígidas, como redução de vagas, suspensão de vestibulares, visitas presenciais sem aviso prévio e até a possibilidade de fechamento de cursos que não consigam se adequar aos padrões mínimos de qualidade. São passos importantes, mas que precisam ser acompanhados de transparência, continuidade e firmeza.
O Brasil não aguenta mais esse tipo de enganação, especialmente na área da saúde. É hora de uma verdadeira varredura no ensino médico, com responsabilidade institucional, fiscalização rigorosa e compromisso com a sociedade. A formação de médicos não pode ser tratada como negócio comum. Está em jogo a vida das pessoas, a credibilidade das instituições e o futuro da saúde pública brasileira.
Ignorar os dados seria um erro histórico. Enfrentá-los com seriedade é uma obrigação ética do Estado, das universidades e de todos os atores envolvidos. Afinal, formar bons médicos não é um favor, é um dever com o país.
