O Brasil chegou ao fim de 2025 com um dos dados mais graves de sua história recente na área de direitos humanos e segurança pública. Levantamentos baseados em informações das Secretarias Estaduais de Segurança Pública, consolidados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, indicam que o país registrou níveis recordes ou muito próximos disso de feminicídios, mantendo a média alarmante de cerca de quatro mulheres assassinadas por dia por razões de gênero. O número total ultrapassa a marca de 1.400 vítimas ao longo do ano, podendo ser ainda maior com a consolidação definitiva dos dados de alguns estados.
Trata se do maior patamar desde que o feminicídio passou a ser tipificado como crime no Brasil, em 2015, quando foi reconhecido legalmente como uma forma qualificada de homicídio, praticada em razão da condição de mulher da vítima. Mesmo com o avanço da legislação e com penas mais severas, que podem chegar a quarenta anos de prisão em casos com agravantes, a violência segue em patamar elevado e sem redução consistente ao longo da última década.
Os dados revelam que a maioria dos feminicídios ocorre em contextos domésticos ou familiares. Em grande parte dos casos, o autor do crime é companheiro, ex-companheiro ou alguém com vínculo afetivo direto com a vítima. Especialistas apontam que, na maioria das ocorrências, o assassinato é o desfecho de um histórico prolongado de agressões físicas, psicológicas, ameaças e controle, muitas vezes já conhecido por familiares, vizinhos ou até pelas autoridades. Ainda assim, a violência não é interrompida a tempo, evidenciando falhas graves na rede de proteção.
Apesar da existência da Lei Maria da Penha e das medidas protetivas de urgência, a prevenção continua sendo um dos maiores desafios. Casos de descumprimento de ordens judiciais, demora no atendimento policial, dificuldade de acesso a delegacias especializadas e a subnotificação das agressões contribuem para a permanência do ciclo de violência. Muitas mulheres são mortas mesmo após terem buscado ajuda do Estado, o que reforça a necessidade de respostas mais rápidas e eficazes.
Estados mais populosos, como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, concentram os maiores números absolutos de feminicídios, mas especialistas alertam que o problema é nacional e atinge todas as regiões do país. Quando analisadas as taxas proporcionais, a violência se espalha por cidades de médio e pequeno porte, áreas rurais e regiões do interior. No Nordeste, os dados históricos mostram índices elevados de violência letal contra mulheres, agravados por desigualdades sociais, fragilidade das redes de acolhimento e dificuldade de acesso a serviços especializados.
Outro dado que se repete nos levantamentos oficiais é o recorte racial. Mulheres negras continuam sendo as principais vítimas de feminicídio no Brasil, evidenciando a intersecção entre violência de gênero, racismo estrutural e desigualdade social. Esse cenário mostra que o feminicídio não é um fenômeno isolado, mas parte de um problema estrutural profundamente enraizado na sociedade brasileira.
A reação social diante desses números tem sido marcada por indignação e mobilização. Ao longo de 2025, manifestações ocorreram em diversas capitais e grandes cidades, com atos públicos, marchas e campanhas nas redes sociais cobrando políticas públicas mais eficazes e denunciando o avanço da misoginia e da violência contra mulheres. O tema também ganhou repercussão internacional, com alertas sobre o crescimento do discurso de ódio e da banalização da violência de gênero.
Os feminicídios representam apenas a face mais extrema de um cenário ainda mais amplo de violência. Pesquisas nacionais indicam que milhões de mulheres sofrem, todos os anos, algum tipo de agressão física, psicológica, sexual ou patrimonial. O assassinato, nesses casos, é o último elo de uma cadeia de violações que começa muito antes, geralmente no silêncio, na dependência emocional ou econômica e na falta de proteção efetiva.
