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Burrice é crime?

Em novo poema, o escritor Kleber Mineiro explora o uso da expressão "Burrice é crime" e sua aplicação em um contexto político e social cheio de ideologias e fanatismo, onde a razão pouco é usada

Foto: wirestock/Freepik

Em novo poema, o escritor Kleber Mineiro explora o uso da expressão “Burrice é crime” e sua aplicação em um contexto político e social cheio de ideologias e fanatismo, onde a razão pouco é usada.

Há frases que chegam curtas, mas não vêm pequenas.
“Burrice é crime” é uma delas.

À primeira vista, parece exagero.
Depois, olhando melhor para certos debates públicos,
ela começa a soar como diagnóstico.

Não falo de direita ou esquerda —
essas são apenas posições no mapa.
Falo de quem, tendo olhos, prefere a venda;
tendo dados, prefere o grito;
tendo fatos, prefere a torcida organizada.

Quando alguém decide defender um governo, um dirigente,
uma ideia claramente divorciada do bem comum,
não por convicção refletida,
mas por apego cego,
ele não está fazendo política —
está fazendo birra com o destino coletivo.

Ideologia é ferramenta.
Quando vira religião sem divindade,
transforma-se em altar da própria vaidade.

O problema não é errar.
Errar é humano, revisável, até nobre.
O problema é amar o erro,
adotá-lo,
alimentá-lo,
e ainda convidá-lo para ser padrinho da própria consciência.

Há quem defenda o indefensável
como se estivesse defendendo a própria honra.
Confunde partido com caráter,
líder com salvador,
slogan com verdade.

E assim, no teatro da vida pública,
troca-se o argumento pelo aplauso,
a ética pelo entusiasmo,
o bem comum pelo “meu lado”.

Se burrice é crime,
não é porque a lei a tipifique,
mas porque ela fere silenciosamente o coletivo.
Ela vota contra a escola,
contra o hospital,
contra a justiça —
e depois reclama do remédio amargo
que ajudou a prescrever.

Não se trata de discordar.
Discordar é saudável.
O mundo avança pelo conflito inteligente.
O que empobrece é a fidelidade cega
ao erro evidente.

Quem não admite a possibilidade de estar equivocado
abdica do que tem de mais humano:
a capacidade de rever.

E quando alguém,
por orgulho ideológico,
defende o que é desonesto,
injusto,
ou simplesmente incompetente,
não está apenas sendo teimoso —
está colaborando com o dano.

Não por ignorância inocente,
mas por escolha confortável.

A burrice mais perigosa
não é a de quem não sabe.
É a de quem sabe —
e mesmo assim insiste.

No fim das contas,
talvez a frase não seja acusação,
mas alerta.

Porque se a inteligência nos foi dada
como instrumento de construção,
usá-la para sustentar o que sabidamente prejudica
é desperdiçar o único recurso
que poderia nos salvar de nós mesmos.

E isso,
convenhamos com leve ironia e um sorriso no canto da boca,
é um delito contra a própria lucidez.

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