Home 1 Minuto com Sérgio Machado Coragem contra o algoritmo: A luta para proteger crianças das redes sociais

Coragem contra o algoritmo: A luta para proteger crianças das redes sociais

O que está em jogo não é apenas o acesso a aplicativos, mas o impacto profundo que esses ambientes digitais exercem sobre a saúde mental e o desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes. Estudos ao redor do mundo já apontam a relação entre uso excessivo de redes sociais e aumento de ansiedade, depressão, distorções de autoimagem e dependência comportamental

Foto: Viktollio/Shutterstock

No meio da enxurrada diária de debates sobre tecnologia e seus impactos na sociedade, uma figura se destaca pela coragem de enfrentar gigantes globais e, ao mesmo tempo, olhar para o futuro com responsabilidade. A australiana Julie Inman Grant, comissária de segurança digital da eSafety Commissioner, passou a viver sob constantes ameaças após liderar um movimento firme para restringir o acesso de crianças às redes sociais. Seu posicionamento provocou reações intensas, inclusive ataques pessoais, mas também abriu um debate profundo e necessário sobre os limites da tecnologia na vida de menores de idade.

A discussão ganhou ainda mais força quando a Austrália aprovou uma legislação histórica que proíbe o acesso de menores de 16 anos às principais plataformas digitais. A medida atinge redes amplamente utilizadas como Facebook, Instagram, TikTok, Snapchat, YouTube e X, obrigando essas empresas a criarem mecanismos eficazes de verificação de idade sob risco de multas severas. Trata se de uma mudança estrutural que desafia diretamente o modelo de negócios baseado em engajamento ilimitado e permanência constante nas telas.

O que está em jogo não é apenas o acesso a aplicativos, mas o impacto profundo que esses ambientes digitais exercem sobre a saúde mental e o desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes. Estudos ao redor do mundo já apontam a relação entre uso excessivo de redes sociais e aumento de ansiedade, depressão, distorções de autoimagem e dependência comportamental. Em uma fase da vida marcada pela construção de identidade, a exposição permanente a métricas de popularidade, comparação social e conteúdos muitas vezes nocivos pode gerar consequências duradouras.

A reação agressiva enfrentada por Julie Inman Grant revela uma contradição inquietante. Ao defender mais segurança para crianças no ambiente digital, ela se tornou alvo da própria violência que tenta combater. A internet que deveria ser espaço de conexão e informação também abriga ataques coordenados, discursos extremistas e ameaças que ultrapassam os limites do debate democrático. Esse cenário evidencia que a discussão sobre regulação não é simples, mas é urgente.

A iniciativa australiana não resolve todos os problemas nem elimina os desafios da era digital. No entanto, representa um passo simbólico e prático em direção a uma sociedade que decide colocar o bem estar das novas gerações acima dos interesses econômicos das grandes empresas de tecnologia. Mais do que proibir, a proposta convida a repensar prioridades, fortalecer a educação digital, ampliar o diálogo com famílias e estabelecer responsabilidades claras para as plataformas.

A história dessa comissária australiana mostra que proteger a infância exige firmeza, visão de futuro e disposição para enfrentar resistências. Talvez o mundo precise de mais vozes como a dela, capazes de questionar o que se tornou comum e de lembrar que desenvolvimento saudável não pode ser subordinado à lógica dos algoritmos. Proteger crianças não é retrocesso, é avanço civilizatório.

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