Sou de uma geração que se ergueu sob o pálio de uma espécie de culto ingênuo a um coletivo narcisismo, um certo romântico nacionalismo. Para nós, tudo que vinha de fora, de qualquer outro lado, em especial dos norte-americanos, devia ser rechaçado. E esse reproche casuístico contaminava, inclusive, o universo linguístico. No entanto, os estrangeirismos, ou a absorção de palavras de um idioma diferente, tornou-se algo cada vez mais recorrente.
Sucede que, quando passamos a sorver as frutas da maturidade e mergulhamos no exame do nosso léxico, é possível concluir que a nossa “última flor do lácio, inculta e bela” – que, para Olavo Bilac, é, “a um tempo, esplendor e sepultura, ouro nativo, que na ganga impura, a bruta mina entre os cascalhos vela” – teve seus órgãos constituídos de empréstimos do árabe das línguas germânicas, da dramaturgia italiana, da pujança espanhola, dos fonemas gastronômicos do francês, do gingado das línguas africanas, da essência nativa das nossos idiomas indígenas, etc.
Com efeito, a História testa e atesta que os empréstimos linguísticos de outros biomas estão entranhados nas raízes pivotantes dos mais diversos idiomas. Melhor sopesando, ao vocabulário eles servem como uma espécie de ampliação, agregando ganhos à comunicação. Os estrangeirismos, como hoje destacado, facilitam a troca de informações em um mundo globalizado. Sobremaneira, permitem a compreensão de conceitos modernos sem necessidade de forçada tradução.
Esse exórdio é para destacar um estrangeirismo atrevido, como overdelivery conhecido. Em uma tradução livre demais, significa “entregar mais”. Em outra palavra viva: ir além da expectativa. Trata-se de surpreender o próximo – seja ele um parente, um amigo ou um cliente – com algo que gere mais do que emoção, comoção; mais do que espanto, encanto; e, em seu melhor momento, maravilhamento. Ou seja, um rasgo de inesperado humanismo em ação capaz de elevar a dignidade de uma relação.
Isso que aqui do meu canto chamo de encanto, a ciência, com seu pudor, descreve como percepção de valor. Porém, a ciência tem dificuldade de adentrar às cavernas secretas da consciência. Ela apenas descreve o mecanismo, como um astrônomo que o brilho de uma estrela vai calcular sem no seu assombro tocar. O assombro, o assombro essencial, pertence a outro domínio: o existencial. E o existencial deriva de outro manancial. Vem da radiestesia espiritual. Seu território é o da ética ou da captação sensível das frequências energéticas. Sua fonte é indizível, indistinguível, indestrutível, invisível.
Por essa lente, o ser humano é capaz de ver tudo de forma diferente. Nessa radiosa paisagem, o overdelivery é uma cotidiana imagem. Ou a aplicação prática da lei da caridade, capaz de espargir a justiça com jatos de fraternidade. No andar dessa carruagem ativa, a generosidade de um gesto extra é uma prática efetiva e não uma dominação afetiva.
Em sua espiritual espessura, o overdelivery é uma forma superior de cura. É mais do que uma prática mercadológica de encantamento e fidelização. É o embalo suave e harmonioso do universo em canção. É trazer o longínquo para perto, oferecer o copo d’água na sequidão do deserto.
O overdelivery pode ser, nessa sociedade líquida de tanta bola dividida, o marco zero, o ponto inicial de uma filosofia de vida. Chegar antecipadamente não é só agilidade; é respeito ao tempo do outro com um rasgo de bondade. Oferecer um conteúdo adicional é um bônus com reforço emocional. A embalagem melhor não é só estética; é a que carrega o detalhe da ética. Apostar na delicadeza em meio a aspereza, mesmo suportando protestos, é a sua prova que não mede o mundo apenas em gramas, mas em gestos. Overdelivery! Entregue mais e construa uma cultura de paz.
