Esta coluna traz à reflexão uma matéria publicada pelo UOL, que expõe uma realidade cada vez mais presente no Brasil: cidades com dificuldades financeiras investindo cifras milionárias na contratação de artistas para grandes eventos.
Enquanto hospitais enfrentam filas, escolas lidam com limitações estruturais e estradas seguem necessitando de melhorias, cresce nos bastidores da gestão pública um outro tipo de espetáculo, o das contratações de shows com cachês elevados, muitas vezes incompatíveis com a realidade fiscal dos municípios. Em diversas situações, cidades dependentes de repasses federais entram na rota de grandes eventos e assumem compromissos financeiros que pressionam seus orçamentos.
O fenômeno não é novo, mas ganhou força nos últimos anos. A justificativa costuma ser o impacto econômico e a valorização cultural, já que eventos movimentam o comércio, atraem visitantes e geram visibilidade. No entanto, o retorno é, na maioria das vezes, temporário, enquanto o gasto público permanece significativo e contínuo.
No Nordeste, esse cenário se intensifica com a proximidade de festas tradicionais, como o São João e aniversários de municípios. Prefeituras disputam artistas consagrados, elevando cachês e criando uma espécie de competição que pouco dialoga com a realidade financeira local.
No Ceará, estado de forte tradição cultural, o debate exige ainda mais responsabilidade. Valorizar a cultura é essencial, mas é preciso estabelecer equilíbrio. Municípios com baixa arrecadação própria não podem ignorar prioridades básicas em nome de grandes eventos. O problema não está na realização das festas, mas na falta de critérios claros, transparência e proporcionalidade nos gastos.
A lógica política também se faz presente. Eventos se transformam em vitrines de gestão e instrumentos de popularidade, especialmente em períodos estratégicos. Com isso, o gestor corre o risco de deixar de atuar como administrador responsável para assumir o papel de promotor de eventos.
A sociedade precisa acompanhar de perto esses investimentos. Transparência nos contratos, divulgação dos valores pagos, critérios técnicos na escolha das atrações e equilíbrio entre cultura e serviços essenciais são pontos fundamentais para uma gestão pública responsável.
O dinheiro público exige compromisso. E, diante desse cenário, fica uma reflexão necessária: o problema não é o show, nem o artista.
É, sobretudo, quem paga a conta.
