Há trezentos anos, quando o Atlântico, instituição formosa, sussurrava segredos ao vento e aos pássaros, uma fortaleza ergueu-se como uma branca rosa. Não era apenas pedra e cal que se plantava em um selvagem litoral – era um sonho, era luz, era sal! Uma aposta de homens que acreditavam, sob o signo da liberdade – onde o mar encontra a terra com fúria, beleza e solenidade – poderia florescer uma pujante cidade. Hoje, neste tricentenário, Fortaleza revela o esplendor do calendário, prova viva de que sonhos podem virar estuário de um caudaloso rio libertário.
O mar, padrinho da Iracema fagueira, foi sempre a testemunha primeira. Aquele mesmo oceano que trouxe caravelas e incertezas, foi o confidente-mor das promessas ensolaradas das belezas. Ali está ele, como um impassível e eterno guardião, feito ruminante silencioso do barulho de cada transformação. As extensas praias, palcos que saudaram a eternidade, hoje recebem o abraço do turismo e da modernidade. (Um dia, que ficou sem oficial registro manuscrito, foram apenas primevas extensões de um horizonte infinito.) O doirado sol, que queima a pele do contemporâneo cearense cheio de amores, é o mesmo que bronzeou os rostos daqueles primeiros construtores. Aqueles que não tinham um mapa preciso e acurado, apenas coragem e certeza de que algo grande nasceria naquele chão inexplorado.
Três séculos é tempo suficiente para que uma cidade respire diferente, mude de pele, ganhe corpo e se reinvente. Fortaleza, fonte de rebuliço, fez tudo isso. Do forte militar ao porto comercial, evoluiu de forma fenomenal. Do engenho de açúcar ao esplendor do algodão, vestiu o mundo e inspirou canção. Da luta pela sobrevivência ao pulsar urbano de hoje, uma multiplicidade de trajetórias – cada uma deixou suas marcas, suas cicatrizes, suas glórias. Os poucos casarões coloniais ainda cochicham: são histórias de famílias que impérios construíram. As ruas do centro guardam das revoluções um invisível memorial: encontros e entrecontos que se cruzaram sob o mesmo céu tropical.
Mas este assoalho abençoado não é apenas passado. É, sobretudo, um povo que aprendeu a se ressignificar: com a seca brincar, com a chuva dançar, com a dor cantar e com um novo horizonte sonhar. A cultura, espetáculo em teias, é força pulsante em suas veias. É a genialidade vibrante de uma tradição: baile de ritmos, poesia que brota como espontânea invenção. É o testemunho vivo de uma cidade que nunca deixou cair o ímpeto de criar e, sobretudo, a fecunda destreza de imaginar. Seus filhos se espalharam pelo mundo levando consigo uma luz particular, o cativante sotaque de quem nasceu onde o sertão encontra o mar.
A explosão urbana dialética – edifícios que saúdam o céu, avenidas que se derramam como mel – exibe uma contradição estética, pois nada disso apagou sua alma poética. Convivem aqui, em tensão germinal, o antigo e o novo, o moderno e o tradicional. É nessa fricção que a cidade encontra sua verdadeira beleza: a capacidade de honrar o que foi enquanto abraça o futuro com destreza.
Neste tricentenário, eis o itinerário da bonança: olhar para trás com gratidão e para a frente com esperança. Fortaleza permanece aquilo que sempre foi: um pujante farol, artefato de anzol, condomínio de sol. Não apenas para navegantes e empreendedores, mas também para missionários e sonhadores. Uma cidade que prova, a cada amanhecer, que é possível construir beleza e prazer. Uma urbe que teve como água de batismo a chispa de fidalguia do lirismo!
Que os próximos trezentos anos encontrem Fortaleza essencialmente mais luminosa, exibindo uma silhueta ainda mais generosa. Fiel àquele espírito que a fez nascer e mirar o impossível: uma comunidade crédula que o futuro, como o mar, é sempre possível.
