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Financiamento para energia solar no Ceará recua mais de 60% após mudança em regras de crédito

Exigência de equipamentos com conteúdo nacional reduz acesso a recursos e preocupa setor de geração distribuída

Foto: Natinho Rodrigues/SVM

Os financiamentos destinados à instalação de sistemas de energia solar em residências e pequenos negócios registraram forte queda no Ceará após mudanças nas regras para concessão de crédito com recursos do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE). A informação é da jornalista Mariana Lemos, do Diário do Nordeste.

Dados do Banco do Nordeste (BNB) mostram que, entre janeiro e abril deste ano, foram liberados R$ 3 milhões para projetos do segmento no estado. No mesmo período de 2025, o volume contratado havia alcançado R$ 9,4 milhões, o que representa uma redução superior a 62%.

A retração também foi observada em toda a área de atuação da instituição financeira. O montante financiado caiu de R$ 78,9 milhões nos quatro primeiros meses de 2025 para R$ 35,1 milhões neste ano, recuo de 55,5%.

A diminuição ocorre após a adoção de novas exigências do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), que passaram a priorizar equipamentos produzidos no Brasil para operações financiadas com recursos dos fundos constitucionais.

Em nota, o Banco do Nordeste ressaltou que, na condição de operador do FNE, precisa seguir as determinações estabelecidas pelo ministério. A instituição informou que as regras atuais exigem o cumprimento de critérios relacionados ao conteúdo nacional mínimo dos equipamentos financiados, conforme previsto no regulamento do Credenciamento FINAME.

A exigência está em vigor desde novembro de 2025 e reduziu a quantidade de fornecedores aptos a participar dos projetos. O objetivo da medida, segundo o setor, é estimular a indústria nacional. Representantes do segmento destacam, porém, que cerca de 95% dos sistemas, placas e equipamentos utilizados na geração solar são produzidos na China.

Para o conselheiro do Movimento Solar Livre, Williman Oliveira, embora a iniciativa tenha potencial para estimular a produção brasileira, seus efeitos imediatos acabam dificultando a expansão da geração distribuída.

“O setor de energia renovável é peculiar. Cerca de 95% dos sistemas de energia solar, placas e equipamentos todos são produzidos e vêm da China. Praticamente só 5% são produzidos no Brasil, e também não tem insumo suficiente”, afirma.

Ainda de acordo com Oliveira, os equipamentos certificados como nacionais podem custar até 40% mais do que os importados, o que encarece os projetos e reduz a procura pelo financiamento.

A Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) também avalia que a mudança afetou diretamente o acesso ao crédito para consumidores e pequenos empreendedores interessados em gerar a própria energia.

“Na prática, toda a linha do FNE Sol anunciada em R$ 200 milhões, em 2025, foi prejudicada. Encarecendo e dificultando o acesso ao crédito, especialmente para pequenos negócios, produtores rurais e consumidores residenciais que desejam gerar a própria energia”, destacou a entidade.

A Absolar afirma que o Banco do Nordeste era o banco público mais competitivo para o financiamento de sistemas de geração, especialmente para pessoas físicas e pequenos negócios.

Segundo a entidade, o impacto das novas exigências tende a ser mais significativo nas operações realizadas com recursos públicos do que em instituições que utilizam capital próprio.

Segundo Thiago Holanda, membro do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), a retração dos financiamentos, isoladamente, não comprova uma desaceleração de todo o setor, mas representa um sinal econômico relevante.

“A geração distribuída depende muito de crédito de longo prazo e juros menores. Quando o financiamento subsidiado diminui, projetos residenciais, rurais e de pequenas empresas tendem a ser adiados”, observa.

O menor número de projetos financiados ocorre em meio à redução do ritmo de crescimento do setor solar no país. Em 2025, a potência adicionada pela energia solar no Brasil caiu 29% em comparação com 2024. Já os investimentos em geração distribuída e em grandes usinas solares recuaram 40%.

O presidente da Frente Cearense de Geração Distribuída, Lucas Melo, afirma que a redução do crédito compromete a expansão da energia solar e afeta a dinâmica do pequeno comércio, a geração de empregos e o desenvolvimento regional.

“Sem ajuste na política de crédito, compromete-se a expansão da energia solar, a dinâmica do pequeno comércio, a geração de empregos e o desenvolvimento regional. A transição energética precisa ser viável para quem sustenta a base da economia”, afirma.

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