Mais de 45 mil pessoas receberam no Ceará a vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan desde o início de 2026. Apesar da suspensão temporária da aplicação do imunizante em todo o Brasil, a Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) afirma que não há registros de reações graves associadas à vacina no Estado.
A interrupção preventiva foi anunciada pelo Ministério da Saúde após a notificação de 42 eventos adversos graves e dois óbitos entre pessoas imunizadas em diferentes regiões do país. As investigações seguem em andamento e, até o momento, não há comprovação de que os casos tenham sido provocados pela vacina.
Em entrevista ao Diário do Nordeste, o secretário executivo de Vigilância em Saúde da Sesa, Antonio Silva Lima Neto, conhecido como Dr. Tanta, informou que cerca de 2 mil cearenses vacinados recentemente continuam sendo acompanhados pelas equipes de saúde. Segundo ele, nenhum apresentou complicações relevantes até agora.
No Ceará, a maior parte das doses foi aplicada em Maranguape, na Região Metropolitana de Fortaleza, onde ocorreu uma campanha-piloto de vacinação em massa voltada para pessoas entre 15 e 59 anos. O município registrou pouco mais de 24 mil aplicações. Durante a ação, foram contabilizadas 180 notificações de eventos adversos, todas consideradas leves.
Posteriormente, a vacina também passou a ser destinada a profissionais da Atenção Primária à Saúde, incluindo médicos, enfermeiros e demais trabalhadores das unidades básicas. Aproximadamente 22 mil doses foram aplicadas nesse grupo.
Entre as reações mais observadas no Ceará estão sintomas já previstos pelos estudos clínicos e descritos na bula do imunizante, como febre baixa, dor de cabeça, mal-estar e o aparecimento de manchas avermelhadas na pele, conhecidas como rash cutâneo.
De acordo com especialistas, esses efeitos estão relacionados à tecnologia utilizada na Butantan-DV, que emprega vírus vivos atenuados. Como o vírus enfraquecido ainda se replica em pequena escala no organismo, pode provocar sintomas semelhantes aos de uma infecção leve, estimulando a produção de anticorpos.
Os casos mais graves investigados pelo Ministério da Saúde foram registrados principalmente na região Sul do país. Um grupo de especialistas analisa os históricos médicos dos pacientes para determinar se há relação direta entre os eventos e a vacinação ou se outros fatores podem ter contribuído para os desfechos.
A identificação dessas ocorrências ocorreu por meio do sistema de farmacovigilância, mecanismo responsável por monitorar a segurança de vacinas e medicamentos após sua liberação para uso em larga escala. Em todo o Brasil, cerca de 3 mil eventos adversos foram notificados entre os vacinados com a Butantan-DV, dos quais 42 foram classificados como graves.
Especialistas ressaltam que reações severas não foram observadas durante os estudos clínicos do imunizante, que envolveram mais de 11 mil voluntários acompanhados ao longo de cinco anos. Segundo eles, o monitoramento contínuo permite detectar efeitos extremamente raros que só aparecem quando milhões de pessoas passam a utilizar a vacina.
A orientação das autoridades sanitárias é que pessoas vacinadas há mais de 21 dias não precisam se preocupar, já que os eventos adversos costumam surgir nas primeiras semanas após a aplicação. Nesse período, quem apresentar sintomas como dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sangramentos, sonolência excessiva, tontura ou sinais de desidratação deve procurar atendimento médico.
Enquanto a vacina do Butantan permanece com aplicação suspensa, a Qdenga, produzida pelo laboratório japonês Takeda, segue disponível nas unidades de saúde e na rede privada. O imunizante integra o Programa Nacional de Imunizações (PNI) desde 2024 e é destinado a crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, faixa etária definida de acordo com a capacidade de produção do fabricante.
