No poema “Não Acuse o Céu”, o escritor Kleber Mineiro propõe uma reflexão sobre as escolhas humanas, as consequências dos nossos atos e a forma como, muitas vezes, buscamos no céu respostas para dores que nasceram dos próprios caminhos que escolhemos. Com uma abordagem espiritual e reflexiva, o autor destaca a liberdade humana e a possibilidade de recomeçar, antes de nos convidar a olhar para os próprios passos.
É curioso…
Quando a colheita amarga chega,
há quem levante os olhos
não para agradecer o sol,
mas para interrogar o céu.
Como se Deus
assinasse as escolhas
que fizemos distraídos,
ou escrevesse, com mãos divinas,
as linhas tortas
que rabiscamos com nossa pressa.
O Pai nos deu o mapa,
mas deixou conosco
a liberdade dos caminhos.
Deu-nos a consciência,
não para enfeitar a alma,
mas para iluminar os passos.
Há dores
que nasceram do destino.
Mas muitas outras
foram apenas sementes
que nossas próprias mãos
lançaram sobre a terra.
Não é castigo.
É consequência.
E consequência
não é vingança de Deus;
é a vida ensinando
o que o orgulho recusou aprender.
Antes de perguntar:
“Por que comigo?”,
talvez seja mais sábio perguntar:
“Em que momento deixei
de ouvir a voz tranquila
que me convidava
a seguir por outro caminho?”
Deus continua fazendo
o que sempre fez:
abre portas,
inspira recomeços,
fortalece os cansados,
acolhe os arrependidos
e transforma lágrimas
em esperança.
Mas há uma porta
que nem o próprio Deus arromba:
a da vontade humana.
Porque o amor verdadeiro
não invade.
Apenas espera.
E talvez o maior milagre
não seja Deus mudar o nosso destino.
Seja nós,
enfim,
mudarmos o rumo dos nossos passos,
para que o céu
não precise carregar
o peso dos erros
que pertencem somente à terra.
akam.
