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Fóssil de crustáceo com 115 milhões de anos, batizado em homenagem a Padre Cícero, retorna ao Ceará

O material pertence a uma espécie de pequeno crustáceo que habitava a região da Bacia do Araripe há aproximadamente 115 milhões de anos. A previsão é que o exemplar seja repatriado e chegue ao Ceará ainda em 2026

Foto: Reprodução

Um fóssil encontrado em uma coleção paleontológica nos Estados Unidos está prestes a retornar ao Cariri cearense. O material pertence a uma espécie de pequeno crustáceo que habitava a região da Bacia do Araripe há aproximadamente 115 milhões de anos. A previsão é que o exemplar seja repatriado e chegue ao Ceará ainda em 2026. As informações são do Diário do Nordeste.

A espécie foi batizada de Cicero spectabilis, nome que faz referência ao Padre Cícero, figura histórica do Cariri, e ao termo latino “spectabilis”, associado a algo extraordinário ou espetacular. Depois da devolução, o fóssil será incorporado ao acervo do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens (MPPCN), da Universidade Regional do Cariri (Urca).

O material deverá ficar disponível para pesquisas e atividades acadêmicas, além de poder ser consultado por estudantes e visitantes da instituição.

Atualmente, o fóssil permanece no Centro de Paleontologia da Universidade de Illinois, onde foi identificado pelos pesquisadores. De acordo com Daniel Lima, professor da Urca e integrante do Programa de Pós-Graduação em Diversidade Biológica e Recursos Naturais, os procedimentos necessários para o transporte já estão sendo organizados.

A localização do exemplar ocorreu em setembro de 2023, depois que o pesquisador recebeu de Arthur Anker, cientista estrangeiro e amigo, a informação de que havia um fóssil procedente do Cariri em uma coleção nos Estados Unidos. Ao entrar em contato com os responsáveis pelo acervo, Daniel descobriu que a peça havia sido doada à instituição norte-americana anos antes.

A partir da identificação da origem do material, os pesquisadores brasileiros iniciaram as tratativas para trazer o fóssil de volta ao país. Segundo Daniel, a legislação brasileira estabelece que fósseis são bens da União, o que levou à busca pela devolução do exemplar.

O processo, conforme o professor, ocorreu de maneira colaborativa com a instituição norte-americana. A equipe responsável pela coleção concordou com a restituição do material, evitando uma tramitação mais complexa envolvendo órgãos diplomáticos e outras instituições brasileiras.

Nova espécie ajuda a compreender evolução de crustáceos

Depois de localizada a peça, um grupo formado por pesquisadores da Urca e de universidades estrangeiras iniciou as análises do fóssil. Participaram do trabalho Allysson P. Pinheiro e William Santana, da Urca; Arthur Anker, da Universidade Rei Abdullah de Ciência e Tecnologia; e Sam W. Heads, da Universidade de Illinois.

Os estudos, desenvolvidos até o fim de 2025, levaram à conclusão de que o animal representava uma espécie até então desconhecida pela ciência e sem registro anterior na Bacia do Araripe.

De pequeno porte e com características semelhantes às dos atuais tatuzinhos-de-jardim, o crustáceo vivia no fundo dos antigos ambientes lacustres que existiam na região há milhões de anos. Sua alimentação era baseada principalmente em matéria orgânica em decomposição, desempenhando uma função importante no equilíbrio daquele ecossistema.

A descoberta também chama atenção pela distribuição geográfica do grupo ao qual a espécie pertence. Antes do achado no Cariri, representantes desse grupo eram conhecidos apenas no Hemisfério Norte. O Cicero spectabilis, portanto, representa o primeiro registro no Hemisfério Sul.

Para os pesquisadores, o achado pode contribuir para ampliar o conhecimento sobre a evolução e a distribuição desses organismos durante um período de grandes transformações geológicas, marcado pela fragmentação do antigo supercontinente Gondwana e pela formação do Oceano Atlântico.

Fóssil será submetido a novas análises no Cariri

Embora ainda esteja nos Estados Unidos, o exemplar já foi oficialmente registrado na coleção do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens. Após a repatriação, a expectativa é que novas pesquisas sejam realizadas com o auxílio da estrutura disponível na Urca.

Recentemente, o museu recebeu um microtomógrafo, equipamento capaz de produzir imagens em alta resolução do interior de objetos sem provocar danos ao material analisado. A tecnologia deverá permitir uma investigação mais detalhada da estrutura do fóssil e contribuir para novas descobertas sobre a espécie.

O estudo que resultou na descrição do Cicero spectabilis contou com recursos da Universidade Regional do Cariri, da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

A descrição científica da nova espécie foi publicada em 19 de julho na revista Scientific Reports, publicação vinculada ao grupo editorial da Nature.

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