A Prefeitura de Senador Pompeu, no Sertão Central, informou que foi alvo de um crime cibernético que resultou no desvio de R$ 2.708.870 de contas bancárias do Município. As transferências não autorizadas ocorreram entre a noite de 21 e a madrugada de 22 de julho e atingiram, principalmente, recursos vinculados a convênios.
O caso está sob investigação da Polícia Civil. Documentos enviados ao Repórter Ceará mostram que os valores foram retirados de diferentes contas mantidas pela gestão municipal na Caixa Econômica Federal. Entre elas, aparecem contas relacionadas a IPVA, ICMS, transporte escolar, estradas, Fundo da Criança e do Adolescente e convênios estaduais e federais.
Os criminosos também tentaram movimentar recursos de contas da Prefeitura no Banco do Brasil. Foram registradas oito operações, que juntas somavam aproximadamente R$ 419,6 mil, mas os pagamentos não foram concluídos porque foram impedidos pelo sistema da instituição financeira.
Golpe começou com contatos em nome da Caixa
Os documentos da investigação detalham como teria ocorrido a fraude. Antes das transferências, a Secretaria de Finanças recebeu mensagens eletrônicas que se apresentavam como comunicações da Caixa Econômica Federal e tratavam de uma suposta necessidade de atualização do sistema de gerenciamento bancário.
Posteriormente, um homem que se apresentou como “Ricardo Silva” entrou em contato por telefone dizendo ser funcionário da Caixa e voltou a falar sobre a atualização. Em depoimento à Polícia Civil, servidores relataram que chegaram a procurar a agência bancária do município para verificar a procedência do contato.
A ligação acabou sendo repassada ao tesoureiro da Prefeitura. Segundo o depoimento, o interlocutor demonstrava conhecimento sobre o Gerenciador Financeiro da Caixa e citava problemas que eram efetivamente enfrentados pelos servidores no uso do sistema, como lentidão e dificuldades para acessar extratos. A precisão das informações contribuiu para que o contato fosse tratado, naquele momento, como um procedimento oficial.
Durante a conversa, o servidor foi orientado a acessar o sistema bancário e seguir etapas de uma suposta atualização. Em determinado momento, apareceu uma janela em inglês e, depois, uma tela escura, que foi apresentada pelo interlocutor como parte do processo. Ao final, o computador desligou automaticamente.
A irregularidade foi percebida posteriormente, quando o tesoureiro voltou a acessar o sistema e verificou que uma conta de ICMS, que tinha aproximadamente R$ 179 mil, apresentava saldo de cerca de R$ 17. A partir daí, foram identificadas outras movimentações não autorizadas.
Programas de acesso remoto foram encontrados
Outro depoimento incluído no inquérito aponta que, após serem percebidas alterações no funcionamento do computador utilizado pela Tesouraria, um servidor fez uma verificação no equipamento e encontrou um programa denominado Atera, que não fazia parte das aplicações habitualmente usadas naquela máquina.
Durante uma varredura, também foi identificado outro software de acesso remoto. O servidor relatou ter interrompido a conexão com a internet e removido os programas.
O equipamento foi posteriormente separado para ser submetido à perícia, segundo informações apresentadas à Polícia Civil.
Caso foi mantido sob reserva
De acordo com a Prefeitura, o episódio não havia sido divulgado anteriormente para não prejudicar o rastreamento do dinheiro e a tentativa de identificação dos responsáveis.
Em menos de 24 horas após a descoberta da fraude, o Município registrou um Boletim de Ocorrência na Delegacia Regional de Senador Pompeu e, por meio da Procuradoria-Geral do Município, apresentou uma notícia-crime solicitando formalmente a investigação dos fatos. O documento encaminhado à Polícia trata o episódio, em tese, como estelionato praticado por meio de fraude eletrônica contra uma entidade de direito público.
Servidores municipais já prestaram depoimento, assim como a prefeita Márcia Zomin. A documentação aponta que a gestão também adotou medidas junto às instituições financeiras para contestar as operações, bloquear contas, substituir acessos e senhas e tentar recuperar os recursos desviados.
A Prefeitura afirma que trabalha com os bancos para buscar a recuperação integral dos R$ 2,7 milhões e que novas informações serão divulgadas de acordo com o andamento e os limites da investigação. O Município também informou que casos semelhantes têm atingido outras prefeituras cearenses e citou alertas já emitidos pela Associação dos Municípios do Estado do Ceará (Aprece).
