O senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, afirmou que não houve irregularidade na busca de patrocínio junto ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. Durante entrevista à Globo nesta sexta-feira (28), ele também declarou que respeitará o processo eleitoral e o resultado das eleições.
A entrevista foi conduzida pelos jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli e abordou ainda a condenação de Jair Bolsonaro pelos atos relacionados ao 8 de Janeiro, a política econômica, as tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil e posicionamentos anteriores do candidato.
Caso Master e filme sobre Jair Bolsonaro
Um dos temas abordados foi a relação de Flávio com Daniel Vorcaro, ex-banqueiro do Banco Master. O candidato confirmou que procurou o empresário para obter financiamento privado para o filme “Dark Horse”, sobre o pai, mas negou ter recebido qualquer valor diretamente ou oferecido alguma contrapartida.
“Não tem absolutamente nada de irregular nesse filme”, disse. “Esse foi um patrocínio, não teve nenhuma transferência para Flávio Bolsonaro”, afirmou.
Reportagem do The Intercept Brasil revelou mensagens e um áudio nos quais Flávio cobra recursos de Vorcaro para a produção. Segundo a publicação, R$ 61 milhões foram destinados ao projeto. Os pagamentos são investigados pela Polícia Federal em inquérito autorizado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A PF apura se parte dos recursos foi destinada ao pagamento de despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos e se houve utilização de emendas parlamentares para financiar a produção.
Ao ser perguntado sobre uma mensagem enviada a Vorcaro na qual dizia que estaria “sempre contigo”, Flávio afirmou que a relação entre os dois estava restrita ao projeto cinematográfico.
“A única relação que eu tinha com ele era sobre esse filme, mais nada.”
“Eu não queria que essa obra de arte fosse perdida, né? Era um sonho que tava se realizando ali. Foi uma forma de garantir que esse filme acontecesse”, acrescentou.
O candidato também foi questionado sobre a ausência de divulgação pública do contrato, da planilha de gastos, dos investidores e dos valores destinados por cada um. Segundo Flávio, todo o dinheiro recebido de Vorcaro foi aplicado no filme e a produtora apresentou prestação de contas antes do prazo de 30 dias solicitado por ele.
Visita a Vorcaro
Flávio também foi perguntado sobre uma visita feita a Daniel Vorcaro no fim de 2025, período em que o ex-banqueiro já havia sido preso e utilizava tornozeleira eletrônica.
O candidato não respondeu diretamente se considerava a visita adequada. Disse que mantinha uma relação privada com Vorcaro, negou qualquer tipo de favorecimento e direcionou a discussão para um encontro do banqueiro com Lula.
“O que não é adequado é um presidente da República recebendo, em uma reunião secreta, um banqueiro, prometendo ajudá-lo a resolver o problema do seu banco. Então, fica a pergunta aqui: quem deve explicações é o Lula”, afirmou.
Sobre o encontro ocorrido no fim de 2024, Lula afirmou anteriormente que recebeu Vorcaro a pedido do ex-ministro Guido Mantega e que disse ao então banqueiro que não haveria posicionamento político a favor ou contra o Banco Master, mas uma análise técnica do Banco Central.
Resultado das eleições
Ao tratar das urnas eletrônicas e de declarações dadas anteriormente sobre o sistema eleitoral, Flávio disse que aceitará as regras da disputa e respeitará o resultado.
“Quero dizer a todos vocês que vou respeitar o processo eleitoral, vou respeitar o resultado das eleições. Eu estou concorrendo com essas regras, eu vou ser presidente da República com essas regras.”
Perguntado novamente se reconheceria o resultado mesmo em caso de derrota, respondeu inicialmente que gostaria de ouvir seu nome sendo anunciado como presidente no Jornal Nacional.
Após nova pergunta de Renata Vasconcellos sobre uma eventual derrota, declarou:
“Eu não vou perder essa eleição. E eu digo mais: vou ganhar no primeiro turno”.
Flávio também reconheceu que havia divulgado uma informação incorreta ao dizer que as urnas utilizadas no Brasil eram fabricadas por uma empresa venezuelana. Segundo ele, a empresa apenas participou de processos relacionados ao sistema eleitoral organizados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Condenação de Jair Bolsonaro e 8 de Janeiro
Outro bloco da entrevista tratou dos ataques de 8 de janeiro de 2023 e da condenação de Jair Bolsonaro pelo STF.
Flávio afirmou que “uma grande farsa foi armada” para retirar o pai da vida pública e declarou que o ex-presidente “foi julgado pelos seus inimigos”.
Jair Bolsonaro foi condenado pelo Supremo a 27 anos e três meses de prisão por cinco crimes, entre eles tentativa de golpe de Estado, organização criminosa armada e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.
Durante a entrevista, foram mencionados depoimentos de militares que integraram o governo anterior. Entre eles, o do general Mario Fernandes, que confirmou a autoria de um plano para assassinar Lula, Alexandre de Moraes e Geraldo Alckmin.
“Se esse general planejou isso, a responsabilidade é dele”, respondeu Flávio.
Também foram citadas declarações do brigadeiro Baptista Júnior e do general Freire Gomes sobre risco de golpe e pressões para adesão de militares a uma ruptura institucional.
Flávio afirmou não considerar graves essas declarações e questionou a imparcialidade do ex-comandante da Aeronáutica.
Ao criticar o Supremo, declarou:
“Eu sou o único candidato que pode trazer segurança jurídica de volta. Sou o único candidato que pode recolocar as instituições no seu devido lugar para que o Supremo volte a cumprir a Constituição.”
Tarifas dos Estados Unidos
Flávio atribuiu ao governo Lula a responsabilidade pelas tarifas impostas ao Brasil pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
“Foi o Lula que cavou com força. O Lula procurou muito essa tarifa, xingou, ameaçou. Ele conseguiu. Parabéns, Lula, você conseguiu tarifar as empresas brasileiras”, afirmou.
O candidato também reconheceu que Eduardo Bolsonaro errou ao agradecer pelas tarifas, mas negou que o irmão tenha solicitado a adoção da medida contra empresas brasileiras.
“Eu acho que ele errou de agradecer com relação às tarifas. A decisão quem tomou foi o governo americano, não foi o Eduardo Bolsonaro.”
Flávio afirmou ainda que se posicionou contra a medida e que trabalhou pela retirada das tarifas.
PIX
Questionado sobre uma declaração de Eduardo Bolsonaro envolvendo a possibilidade de incluir o PIX em negociações com os Estados Unidos, Flávio afirmou que não pretende colocar o sistema brasileiro de pagamentos em discussão com o governo norte-americano caso seja eleito.
“De forma alguma. O PIX é sagrado, é do brasileiro”, declarou.
Segundo ele, houve uma distorção das declarações dadas pelo irmão sobre o tema.
Dívida pública e salário mínimo
Na economia, o candidato defendeu um “ajuste fiscal forte” para estabilizar e posteriormente reduzir a dívida pública.
Flávio citou a diminuição do número de ministérios como uma das formas de cortar despesas. Durante a entrevista, porém, não apresentou o valor do ajuste em reais ou como percentual do Produto Interno Bruto (PIB), nem estabeleceu prazo para atingir o objetivo.
O senador também relacionou o endividamento das famílias à política econômica do atual governo e atribuiu o patamar dos juros aos gastos públicos.
“Se fosse um governo que cortasse na carne, um governo que economizasse, certamente a sua dívida não estaria nesse nível”, afirmou.
Sobre o salário mínimo, Flávio não respondeu se manterá ou modificará a atual fórmula de reajuste, que considera a inflação e o crescimento do PIB dos dois anos anteriores.
“Eu não vou fazer economia do povo mais sofrido”, declarou.
O candidato disse também que não pretende economizar com aposentados e apontou o combate à corrupção como uma das formas de reduzir despesas públicas.
Homenagem a Adriano da Nóbrega
Flávio foi questionado ainda sobre uma honraria concedida por ele ao miliciano Adriano da Nóbrega quando exercia mandato de deputado estadual no Rio de Janeiro.
O candidato afirmou que a homenagem ocorreu há mais de 20 anos, quando Adriano era visto como um “policial exemplar”. Naquele período, porém, ele já era acusado de homicídio. Adriano foi morto durante uma operação policial na Bahia em 2020.
“Essa homenagem foi feita há mais de 20 anos, se não me engano, no momento em que ele era um policial reconhecido. […] Eu não posso ser responsabilizado pelo que a pessoa se transforma depois de cinco, dez, 15, 20 anos. Não está no meu controle isso”, afirmou.
Sobre ter empregado a mãe e a esposa de Adriano em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Flávio disse que conheceu as duas quando Adriano estava preso. Segundo o candidato, a mãe dele participava de movimentos de defesa de policiais e atuava fazendo a ligação entre demandas de famílias de policiais militares e o gabinete.
“Trabalhava direitinho, sem problema nenhum”, disse.
Apoio a Rodrigo Bacellar
O candidato também respondeu sobre o apoio a Rodrigo Bacellar (União) para o Governo do Rio de Janeiro. Ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio, Bacellar foi cassado e preso pela Polícia Federal sob suspeita de exercer liderança política do Comando Vermelho.
Flávio afirmou que o nome de Bacellar surgiu dentro de uma composição partidária e declarou que ele tem direito de apresentar sua defesa na Justiça.
Possível ministro da Saúde
Na área da saúde, Flávio indicou que, em caso de vitória, poderá escolher o médico oftalmologista Claudio Lottenberg para comandar o Ministério da Saúde.
“Eu vou transformar a saúde pública numa saúde de qualidade, o SUS vai ser moderno”, afirmou.
Lottenberg preside o conselho do Hospital Israelita Albert Einstein, a Confederação Israelita do Brasil (Conib) e o Instituto Coalizão Saúde (ICOS). Após a entrevista, ele confirmou ter conversado com Flávio e afirmou estar sempre disposto a contribuir com o país em razão de sua experiência.
Aquecimento global
Flávio também foi confrontado com declarações anteriores nas quais negou a existência do aquecimento global.
“Pra mim o que acontece hoje é que são eventos climáticos que são extremos, né? Excesso de calor, excesso de chuva, excesso de seca. Tem épocas que são cíclicas, né? Que faz mais calor, que faz mais frio, e eu não acho que isso tenha a ver diretamente só com a influência do ser humano no meio ambiente.”
Em relação à Amazônia, afirmou considerar o problema mais ligado à criminalidade do que propriamente à questão ambiental e mencionou casos de exploração de ouro em terras indígenas atribuídos ao Comando Vermelho.
Questionado sobre medidas para mitigar as mudanças climáticas, tema que não aparece no plano de governo conforme apontado durante a entrevista, Flávio disse que considera o acesso da população ao saneamento básico a melhor forma de proteção do meio ambiente.
