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Oficinas de cerâmica, bordado e crochê ganham espaço entre adultos que buscam reduzir tempo de tela

Atividades manuais também têm funcionado como ponto de encontro para quem procura novas amizades e convivência fora do ambiente digital

Foto: Bruno Santos/Folhapress

Atividades como cerâmica, bordado e crochê vêm atraindo adultos interessados não apenas em aprender uma habilidade, mas também em passar mais tempo longe das telas e ampliar o convívio social. Ateliês que oferecem oficinas manuais têm recebido um público que procura experiências fora da rotina de trabalho e das redes sociais. As informações são da Folha de S.Paulo.

Dados do Google Trends mostram esse aumento de interesse. Em 2026, as pesquisas pelo termo “cerâmica fria”, técnica de modelagem feita com massa que seca naturalmente e não precisa ser levada ao forno, cresceram mais de 140% na comparação com 2025.

A procura começou a avançar em 2024 e alcançou neste ano o maior nível da série histórica. As buscas gerais por “cerâmica” também chegaram ao patamar mais elevado desde o período da pandemia.

Outras práticas manuais seguem movimento semelhante. As pesquisas por “kit de bordado” voltaram a crescer e atingiram o maior nível desde maio de 2020, quando o termo havia registrado seu pico. Já as buscas por “agulha de crochê” e “linha de crochê” aumentaram 40% em relação ao ano passado.

Em São Paulo, a tendência já é percebida por espaços especializados. No Ateliê Escola, localizado em Santa Cecília, na região central da capital, a cerâmica lidera a procura. De acordo com a proprietária, Bel Ysoh, de 34 anos, boa parte dos alunos é formada por jovens adultos que trabalham de casa e permanecem muitas horas diante do computador.

Além do aprendizado, muitos chegam ao espaço buscando convivência. Entre eles estão pessoas que se mudaram recentemente para São Paulo e encontram nas aulas uma oportunidade de criar novos vínculos.

A diretora criativa Thayse Hoffmann, de 33 anos, é um desses casos. Natural de Porto Alegre, ela chegou à capital paulista poucos meses antes da pandemia e relata ter encontrado dificuldades para formar novas amizades.

Há cerca de um ano e meio, começou a frequentar aulas de cerâmica no Ateliê Escola. Inicialmente, queria encontrar um passatempo e aprender algo novo, mas também via na atividade uma possibilidade de conhecer outras pessoas.

Foi durante as aulas que Thayse formou um novo grupo de amigas. “Hoje almoçamos juntas todos os sábados e já viajamos juntas algumas vezes”, conta. “Eu poderia ter buscado uma atividade que aprendesse online e em casa, mas entendi que era importante criar novas amizades e vínculos nessa cidade”, diz.

As aulas duram aproximadamente três horas e acontecem em mesas coletivas, o que favorece a interação entre os participantes. Mesmo durante atividades que exigem maior concentração, como o uso do torno elétrico, as conversas continuam fazendo parte da rotina.

Os encontros também avançam para além do ateliê. Alunos organizam cafés, happy hours, refeições, viagens e até atividades esportivas. “Hoje eu sinto que pertenço a uma comunidade, me sinto valorizada e reconhecida, cercada de pessoas legais e de amizades verdadeiras”, afirma Thayse.

A designer Júlia França, de 29 anos, também procurou o espaço em busca de uma atividade sem relação com a profissão. Com o tempo, passou a construir amizades com colegas e até com o professor. “Meus ‘cerâmigos’ estão sempre por perto para se encontrar, tomar um cafezinho e trocar ideia”, conta.

Na zona leste de São Paulo, o Nosso Ateliê, no Parque São Jorge, registra procura por oficinas de cerâmica fria, aquarela e bordado. Segundo as proprietárias Isabela Castro e Luana Melian, ambas de 27 anos, reduzir o tempo diante das telas é uma das motivações mais citadas pelos participantes.

Criado há três anos, o espaço já recebeu mais de mil pessoas. O público é composto principalmente por mulheres de diferentes idades.

As responsáveis pelo ateliê observam que muitos alunos chegam sozinhos e relatam dificuldade em conhecer novas pessoas durante a vida adulta. A expectativa, nesses casos, é encontrar alguém com interesses semelhantes. Outros participantes frequentam as oficinas acompanhados de amigos, familiares ou parceiros e aproveitam a atividade como uma forma de convivência.

As relações criadas durante os encontros também permanecem após o encerramento das oficinas. Segundo as proprietárias, alguns grupos formados nas aulas continuam se reunindo em outros ambientes.

“Percebemos que nossa sociedade está cada vez mais carente e extremamente individualizada. Ver o caminho contrário acontecer, de pessoas se abrirem para novas experiências e novas pessoas, muitas vezes bem diferentes delas mesmas, tem sido muito enriquecedor”, diz Castro.

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