A redemocratização brasileira ocorreu em meio a uma crise de endividamento externo que contribuiu para aprofundar as dificuldades econômicas do país nos anos 1980. Ao fim de 1984, último ano completo da ditadura militar, a dívida externa equivalia a 53,8% do Produto Interno Bruto (PIB). Cerca de dois terços desse passivo estavam sob responsabilidade da União, empresas estatais, estados e municípios. As informações são da Folha de S.Paulo.
A crise contribuiu para a disparada do dólar, o avanço da inflação e períodos de recessão. Os pagamentos da dívida externa só foram regularizados em 1994. Desde então, o país passou a concentrar seu endividamento no mercado doméstico e ampliou a atuação do Estado em áreas sociais.
Atualmente, a dívida pública alcança 82,5% do PIB, segundo dados citados pela Folha de S.Paulo. O nível é inferior apenas ao registrado no período excepcional da pandemia. A elevação do endividamento tem aumentado a pressão sobre as contas públicas e colocado no centro das discussões a necessidade de reduzir despesas ou ampliar receitas.
Dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), referentes a 2024 e utilizados para comparação entre países, apontam que o setor público brasileiro gastou o equivalente a 45,8% do PIB. A proteção social concentrou a maior parcela, com 16,5% do PIB destinados a benefícios previdenciários, assistenciais e trabalhistas.
Levantamento do Tesouro Nacional com dados de 55 países de 2023 mostra que o gasto brasileiro com proteção social ficou acima da média das economias avançadas, de 15,2% do PIB, e das economias emergentes, de 8,9%.
Educação e saúde também representam parcelas relevantes das despesas públicas, com 5,1% e 5% do PIB, respectivamente. Os dois percentuais estão acima da média dos países emergentes considerados pelo Tesouro Nacional.
Outro componente de peso são os juros da dívida. Em 2024, os encargos corresponderam a 8,3% do PIB brasileiro, contra médias de 1,7% entre países ricos e 2,9% entre os emergentes analisados pelo Tesouro.
Nos 12 meses encerrados em julho, os pagamentos de juros do governo federal somaram 7,8% do PIB. As demais despesas federais, incluindo pessoal, custeio administrativo, programas sociais e investimentos, chegaram a 19,2%. Juntas, as despesas representaram 27% do PIB, percentual superado apenas em 2020, durante o enfrentamento da pandemia de Covid-19.
Endividamento também atinge famílias
A pressão provocada pelos juros e pelo endividamento público também aparece nas contas das famílias, especialmente entre aquelas que recorrem ao crédito para cobrir despesas básicas.
Um dos casos citados é o da cozinheira Cristina Pereira, de 45 anos, moradora da zona oeste de São Paulo. Beneficiária do Bolsa Família e mãe de quatro filhas, ela teve o benefício reduzido de R$ 850 para R$ 400 após conseguir um emprego formal. Depois de ficar novamente desempregada e afastada por um problema de saúde, passou a enfrentar dificuldades para manter as despesas da casa.
Cristina relata que utiliza o benefício principalmente para comprar alimentos para as filhas e que, em alguns momentos, deixa de adquirir medicamentos. Ela também afirma ter recorrido a empréstimos bancários para cobrir despesas, acumulando dívidas.
“Vivo sem esperanças financeiramente, porque eu já não tenho mais de onde tirar”, afirmou.
Segundo o relato, a dificuldade para equilibrar o orçamento levou à inadimplência. Cristina também disse esperar que o próximo governo tenha atenção às dificuldades financeiras enfrentadas pelas famílias.
“Eu gostaria que entrasse alguém no governo que tivesse esse olhar voltado para as famílias. Como sobrevive com esse valor?”, declarou.
