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Quando a mentira vira notícia: as redes sociais estão colocando a democracia em risco?

O problema não é a existência das redes, muito menos o direito de cada cidadão de expressar suas opiniões. O problema começa quando a liberdade de expressão é confundida com o direito de enganar

As eleições de 2026 deixam uma pergunta incômoda para a sociedade brasileira: estamos usando a tecnologia para fortalecer a democracia ou construindo um ambiente em que a mentira ganha mais força do que a verdade?

As redes sociais ampliaram o acesso à informação, deram voz a milhões de pessoas e abriram caminhos importantes para a participação popular. Mas também se transformaram em um território onde conteúdos falsos, acusações sem provas, manipulações e discursos de ódio podem alcançar milhares de pessoas antes que os fatos sejam devidamente esclarecidos.

O problema não é a existência das redes, muito menos o direito de cada cidadão de expressar suas opiniões. O problema começa quando a liberdade de expressão é confundida com o direito de enganar, quando a desinformação se transforma em instrumento político e quando pessoas sem compromisso com a apuração dos fatos passam a influenciar decisões que afetam toda a sociedade.

O primeiro turno das eleições de 2026 ofereceu um exemplo preocupante. Uma interrupção temporária na exibição nacional dos resultados eleitorais na internet provocou especulações sobre uma suposta fraude. O Tribunal Superior Eleitoral esclareceu que a falha atingiu a visualização dos dados nacionais, sem interromper a apuração nas urnas ou a totalização dos votos. Ainda assim, a suspeita se espalhou pelas redes.

Eis o tamanho do desafio: um fato técnico, que exige explicação e verificação, pode se transformar em combustível para a desconfiança pública. A mentira não precisa ser comprovada para circular. Muitas vezes, basta que seja conveniente para alguém.

Nesse ambiente, cresce também a confusão entre popularidade e credibilidade. Ter milhares ou milhões de seguidores não significa ter conhecimento, preparo ou compromisso com a verdade. Falar com desenvoltura diante de uma câmera não transforma ninguém em jornalista. E publicar uma acusação não significa apresentar uma informação comprovada.

A democracia precisa de vozes diversas, críticas e independentes. Mas precisa, igualmente, de responsabilidade, transparência e respeito aos fatos. Sem esses elementos, o debate público se degrada, a população perde referências e a política passa a ser disputada não apenas por ideias e propostas, mas também pela capacidade de provocar indignação, espalhar suspeitas e manipular emoções.

É nesse cenário que se torna ainda mais importante defender o jornalismo profissional. A imprensa séria, comprometida com a apuração, a pluralidade, a correção dos erros e a responsabilidade perante o público, não é dispensável na era digital. É parte essencial da democracia.

Isso não significa colocar os veículos tradicionais acima de críticas ou presumir que sejam infalíveis. A imprensa também erra e precisa prestar contas à sociedade. A diferença está no compromisso de verificar, confrontar versões, ouvir os envolvidos e corrigir informações quando necessário. Jornalismo não é simplesmente publicar primeiro. É oferecer ao público condições para compreender o que aconteceu.

Também é preciso reconhecer que as plataformas digitais têm responsabilidades proporcionais ao poder que exercem na circulação de conteúdos. Não basta lucrar com a atenção dos usuários e transferir para a sociedade todos os custos da desinformação. Regras transparentes, mecanismos de denúncia, combate a fraudes e prestação de contas precisam fazer parte desse debate, com respeito à liberdade de expressão e às garantias democráticas.

A resposta, porém, não pode depender exclusivamente dos governos, da Justiça ou das empresas de tecnologia. Cada cidadão também tem responsabilidade. Antes de compartilhar uma mensagem, um vídeo ou uma acusação, é necessário verificar a origem, procurar outras fontes confiáveis e desconfiar de conteúdos que apelam ao medo, ao ódio ou à indignação imediata.

O avanço tecnológico deveria representar um avanço civilizatório. No entanto, quando a informação perde valor, a mentira ganha mercado e a confiança pública se desfaz, corremos o risco de avançar nas ferramentas e retroceder na qualidade do debate democrático.

Minha preocupação não é com as redes sociais em si, mas com o modelo de convivência que estamos permitindo construir dentro delas. Um ambiente em que qualquer pessoa pode publicar é uma conquista. Um ambiente em que ninguém se preocupa em verificar o que é publicado é um perigo.

Democracia não é apenas votar, defender um candidato ou ter liberdade para falar. É também garantir que o cidadão possa formar sua opinião com acesso a informações confiáveis, sem ser deliberadamente enganado por quem deseja obter poder, audiência ou vantagem financeira.

As eleições de 2026 precisam deixar uma lição que ultrapasse o resultado das urnas: a democracia não sobrevive apenas com tecnologia, curtidas e compartilhamentos. Ela depende de cidadãos críticos, instituições responsáveis e um jornalismo livre, profissional e comprometido com a verdade.

Porque, quando a mentira passa a valer mais do que os fatos, não é apenas o jornalismo que perde. É a sociedade inteira que corre o risco de perder a capacidade de decidir conscientemente o próprio futuro.

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