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Liceu de Quixeramobim conquista pódio na Feira Regional de Ciências por dois anos seguidos na área de Linguagens e Códigos

Iniciativas desenvolvidas no Liceu Alfredo Almeida Machado abordam inclusão, sustentabilidade e acesso à leitura. Os projetos se destacaram na Feira Regional de Ciências

Foto: Repórter Ceará

A educação nem sempre acontece entre as paredes de uma sala de aula. Em Quixeramobim, no Sertão Central, dois projetos desenvolvidos na Escola de Ensino Médio em Tempo Integral (EEEMTI) Liceu Alfredo Almeida Machado levaram estudantes a conhecer realidades diferentes das suas e a refletir sobre questões que fazem parte do cotidiano, mas nem sempre recebem a devida atenção.

O Girassóis: além do que os olhos podem ver e o Leitura em Todo (EN)canto: comunidade leitora, comunidade cidadã têm propostas distintas, mas compartilham uma preocupação: aproximar a escola da comunidade e mostrar que aprender também envolve escutar, reconhecer e compreender outras pessoas.

Apresentado em 2025, o Girassóis conquistou o terceiro lugar na Feira Regional de Ciências, em Quixadá. No ano seguinte, o Leitura em Todo (EN)canto alcançou o segundo lugar na mesma feira. Mais do que os resultados, as iniciativas proporcionaram experiências que marcaram os estudantes envolvidos, como relatam João Victor, Vitória, Victor e Laís, que participaram da apresentação e do desenvolvimento dos trabalhos.

Quando a educação encontra outras realidades

No projeto Girassóis, apresentado por Victor e Laís, a proposta é refletir sobre sustentabilidade para além da preservação ambiental. Inspirada nos cinco Rs — reduzir, reciclar, repensar, reutilizar e recusar —, a iniciativa também aborda o reconhecimento de pessoas e grupos que desempenham funções importantes na sociedade, mas que nem sempre recebem a atenção que merecem.

Projeto Girassóis | Foto: Arquivo Pessoal

Entre os públicos envolvidos estão estudantes do próprio Liceu, garis, catadores de materiais recicláveis ligados a uma associação local, costureiras da Associação Padre Ibiapina e mulheres em tratamento contra o câncer atendidas pelo Instituto Luz e Vida.

Para Victor, o contato com esses grupos mostrou que a educação pode ultrapassar o conteúdo trabalhado em sala de aula. Ao conversar com as pessoas, os estudantes perceberam a falta de atenção e de informações sobre as realidades vividas por elas.

“Compreender que a educação não se limita às quatro paredes da sala de aula é, de fato, uma experiência transformadora”, avalia o estudante. Para ele, ouvir e buscar compreender o outro permite perceber que, além dos trabalhadores que enfrentam desafios diariamente, existem pessoas com histórias, necessidades e sentimentos que merecem ser reconhecidos.

A experiência também mudou a maneira como Victor observa situações comuns do cotidiano. Ao falar sobre garis e catadores de materiais recicláveis, ele chama atenção para um gesto simples que muitas vezes passa despercebido: cumprimentar quem está trabalhando nas ruas.

“O projeto Girassóis me ensinou que não devemos enxergar apenas o profissional que está ali trabalhando, mas, antes de tudo, o ser humano que existe por trás daquela função, com sua história, seus sentimentos e sua dignidade.”
Marcos Victor

A reflexão, segundo ele, está relacionada ao respeito que deve ser garantido a todas as pessoas, independentemente da profissão que exercem. “Afinal, não é o uniforme que define o valor de uma pessoa, nem a profissão que determina o respeito que ela merece.”

A percepção de Victor se aproxima da experiência de Laís, que também apresentou o Girassóis. Para a estudante, a escola tem um papel importante na formação do pensamento crítico e na maneira como os jovens passam a compreender a sociedade.

Na avaliação dela, a educação pode transformar vidas ao ampliar o acesso ao conhecimento e dar visibilidade a pessoas cujas histórias permaneceram, por muito tempo, pouco conhecidas. O contato com os grupos participantes do projeto permitiu que os estudantes saíssem de suas próprias realidades e conhecessem outras formas de viver.

Laís destaca que se aproximar dessas pessoas abre espaço para conhecer suas trajetórias e compreender dificuldades que nem sempre são percebidas por quem está de fora. Por isso, considera que empatia e compaixão são aprendizados importantes para a formação dos jovens.

“Trabalhar com essas pessoas abre nossos corações e nos faz querer levar suas histórias para todos os cantos”, resume a estudante ao refletir sobre a solidariedade que marcou sua participação.

Leitura para além da escola

Se o Girassóis propõe reconhecer pessoas que nem sempre são vistas pela sociedade, o Leitura em Todo (EN)canto busca aproximar pessoas por meio dos livros e de outras práticas de leitura. Apresentado por João Victor e Vitória, o projeto tem como objetivo democratizar o acesso à literatura por meio de atividades colaborativas realizadas na escola e em instituições públicas de saúde de Quixeramobim.

Projeto Leitura Em Todo (En)Canto | Foto: Arquivo pessoal

A iniciativa parte da compreensão de que a leitura não precisa ficar restrita à sala de aula ou às bibliotecas. Ela também pode chegar a espaços nos quais as pessoas enfrentam situações delicadas, oferecendo oportunidades de expressão, acolhimento e contato com novas histórias.

As atividades foram desenvolvidas em locais como o Instituto Luz e Vida, o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), o Hospital Infantil Municipal e o Hospital Geral Doutor Pontes Neto. Entre as ações estão rodas de leitura, contação de histórias, jogos educativos, produção de textos destinados a pacientes e confecção de objetos, como pulseiras e brinquedos. O projeto também promoveu a arrecadação de livros para ampliar o acesso às obras nas instituições.

Para João Victor, participar das atividades dentro e fora da escola foi uma oportunidade de conhecer situações diferentes daquelas com as quais estava acostumado. As visitas aos ambientes hospitalares, em especial, fizeram com que ele percebesse de perto a diversidade de experiências vividas pelas pessoas.

O estudante conta que o contato com pacientes em situações delicadas o levou a refletir sobre as diferenças entre as realidades individuais e sobre a importância de oferecer ajuda, mesmo por meio de pequenas ações.

A experiência também teve efeitos em sua própria formação. Segundo João Victor, a participação nas atividades contribuiu para que se tornasse mais sociável e expressivo, além de fortalecer sua confiança ao interagir com outras pessoas.

Ele considera que iniciativas como essa são importantes durante o ensino médio, período em que os jovens também estão construindo a maneira como se relacionam com a sociedade e se preparando para a vida adulta. Nesse processo, o respeito e a empatia são fundamentais para a formação de cidadãos conscientes.

Vitória, que também apresentou o projeto, destaca outro aspecto das visitas: o contato com pessoas de diferentes histórias, formas de se expressar e condições físicas. Para ela, essa diversidade mostrou que uma característica ou deficiência não define uma pessoa por completo.

A estudante também relata que conhecer pacientes e observar as condições enfrentadas por eles ampliou sua percepção sobre as desigualdades de oportunidades. A experiência a levou a pensar sobre como as pessoas podem viver realidades muito diferentes, mesmo fazendo parte da mesma comunidade.

Na avaliação de Vitória, ouvir é uma das principais formas de compreender essas diferenças. Como não se conhece toda a história ou as dificuldades de alguém apenas pela aparência, ela considera importante reservar espaço para o diálogo e para a escuta.

Entre os aprendizados que leva do projeto, a estudante destaca justamente a necessidade de compreender o outro. Para ela, essa disposição é essencial para a convivência e para a construção de relações mais respeitosas entre os jovens.

A escola como espaço de encontro

Embora tenham propostas diferentes, os dois projetos compartilham a ideia de que o conhecimento ganha outros sentidos quando entra em contato com a vida das pessoas. No Girassóis, esse encontro acontece por meio da valorização de grupos sociais e da reflexão sobre sustentabilidade. No Leitura em Todo (EN)canto, ele se concretiza na circulação de livros e nas atividades de leitura em espaços escolares e de saúde.

Foto: Arquivo Pessoal

A professora Rayane Fernandes, responsável pelas iniciativas, explica que a formação dos estudantes não deve se limitar à aprendizagem dos conteúdos ou ao desempenho em avaliações. Para ela, a educação também precisa contribuir para que os jovens desenvolvam pensamento crítico, respeitem as diferenças e reconheçam as desigualdades presentes na sociedade.

“Queremos formar pessoas que não apenas saibam responder às questões de uma prova, mas que também saibam responder aos desafios humanos do seu tempo.”
Rayane Fernandes

Essa perspectiva orienta as escolhas feitas nos dois trabalhos. No Girassóis, os grupos foram selecionados por suas relações com questões sociais, ambientais e humanas. Os garis e catadores, por exemplo, desempenham atividades importantes para a limpeza urbana e a preservação ambiental. As costureiras possibilitam discussões sobre trabalho, reaproveitamento de materiais e consumo consciente. Já o contato com mulheres em tratamento contra o câncer abre espaço para reflexões sobre cuidado, solidariedade e dignidade.

O projeto também transformou essas reflexões em produções dos próprios estudantes, como textos, cartas, memórias, fanzines, pinturas e lapbooks. As atividades foram acompanhadas da entrega de sementes de girassol e de ervas medicinais, como capim-santo e hortelã, em uma ação realizada com a participação do curso de Farmácia da UniCatólica de Quixadá.

Para Rayane, a experiência contribui para ampliar a compreensão dos estudantes sobre sustentabilidade, que não se restringe ao meio ambiente, mas envolve também dimensões sociais, econômicas, culturais e humanas. O trabalho, segundo ela, reforça a percepção de que nenhuma pessoa deve ser tratada como invisível.

No Leitura em Todo (EN)canto, a mesma preocupação aparece na decisão de levar as práticas de leitura a instituições públicas de saúde. A professora defende que a literatura deve ser entendida como um direito, e não como um privilégio de quem tem acesso a livros e espaços culturais.

A iniciativa organizou atividades com professores e estudantes. O grupo Leitura entre Olhares envolveu docentes, enquanto o Leitura entre Afetos preparou estudantes para atuar como “Multiplicadores do Bem” nas ações de leitura e acolhimento.

Além de ampliar o acesso aos livros, as atividades favoreceram o trabalho colaborativo, a criatividade, a autonomia e a participação dos estudantes. Nas instituições de saúde, os momentos de leitura também abriram possibilidades de interação e expressão para pessoas que estavam fora do ambiente escolar.

Aprendizados que seguem para além dos projetos

Os resultados alcançados nas feiras de ciências deram visibilidade às duas iniciativas, mas os relatos dos estudantes apontam para aprendizados que não se resumem à classificação. As experiências proporcionaram contato com diferentes grupos, estimularam questionamentos e ajudaram a aproximar o conteúdo escolar de situações concretas da comunidade.

Victor ressalta que conversar com as pessoas envolvidas no Girassóis mostrou que a educação pode estar presente em experiências cotidianas e em discussões sobre questões contemporâneas. Para ele, conhecer outras realidades também contribui para desenvolver um olhar mais crítico sobre o mundo.

Laís, por sua vez, defende que o aprendizado não deve terminar quando as atividades do projeto chegam ao fim. Ela considera importante que os estudantes compartilhem o que vivenciaram com amigos, familiares e outras pessoas da comunidade, ampliando o alcance das histórias que conheceram.

No caso do Leitura em Todo (EN)canto, João Victor destaca as mudanças que percebeu em sua maneira de se comunicar e de se relacionar com os outros. Vitória enfatiza a importância de escutar sem se limitar às primeiras impressões, reconhecendo que cada pessoa tem uma trajetória que merece ser compreendida.

As experiências dos quatro estudantes se encontram em um ponto: aprender também significa rever certezas e perceber realidades que antes poderiam passar despercebidas. Ao participar de atividades fora do espaço habitual da escola, eles tiveram a oportunidade de compreender que a formação cidadã envolve ações, relações e escolhas do dia a dia.

Para Rayane, esse é um dos sentidos centrais dos trabalhos. Enquanto o Girassóis estimula o reconhecimento da relação entre pessoas, ambiente e sociedade, o Leitura em Todo (EN)canto utiliza a literatura para aproximar histórias e experiências.

As duas iniciativas mostram, assim, diferentes caminhos para conectar a educação à comunidade. Entre as produções dos estudantes, as conversas com trabalhadores, as visitas às instituições de saúde e os momentos de leitura, a proposta é ampliar o espaço de aprendizagem e incentivar os jovens a olhar para além da própria realidade.

Apoio e colaboração para os projetos

Ao final, Rayane também agradece à diretora Maninha Amâncio, à coordenadora pedagógica Patrícia Saldanha e à PCA Natalyanne Alves pelo apoio, incentivo e confiança na realização dos projetos. A professora destaca que a parceria da equipe escolar contribui para que as iniciativas sejam desenvolvidas e alcancem os estudantes.

Ela também reconhece a contribuição do amigo Chico Teles, responsável pela doação de livros destinados às ações de incentivo à leitura. Segundo Rayane, a colaboração ajuda a ampliar o acesso à literatura e a criar novas oportunidades de aprendizado, imaginação e conhecimento para a comunidade.

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