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O que a eleição de 2026 deixou de lição para quem faz notícia

A eleição mudou, assim como a comunicação com o eleitor. Tem IA, tem plataforma e tem disputa de versão em tempo real. O jornalismo precisa acompanhar essas mudanças sem abrir mão do básico

Lula (PT) foi reeleito ontem com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL). Passada a apuração, precisamos falar sobre a credibilidade da informação. A urna desmentiu as pesquisas, mas quem vai desmentir a desinformação?

As pesquisas mostravam Lula na frente no primeiro turno, e Flávio terminou com 47,03% e Lula com 45,16%. No segundo turno, o Datafolha deu Flávio com 51% e Lula com 49%, e a urna disse o contrário.

O erro não foi só nacional. No Rio, por exemplo, as pesquisas davam vantagem folgada a Eduardo Paes (PSD), mas quem liderou o primeiro turno foi Douglas Ruas (PL). Aqui no Ceará, o Datafolha foi quem chegou mais perto da vitória de Elmano de Freitas (PT). Já a Veritá mostrou Ciro Gomes (PSDB) com 51,8%, e ele terminou com 46,22%.

Não à toa, já se discute um selo de qualidade para os institutos que mais se aproximarem dos resultados das urnas.

O segundo problema está nas redações. Parte da imprensa parou de disfarçar de que lado estava. Uma avaliação do Jornal Opção aponta a piauí engajada na campanha de Lula e a Veja com sinais de engajamento na de Flávio. Opinião tem lugar no jornalismo, desde que seja assumida e fique separada da notícia.

A campanha de Flávio pediu ao TSE a retirada de 241 publicações de três portais, usando inteligência artificial para contar manchetes negativas e positivas. Imprensa militante se combate com mais jornalismo, não com tesoura judicial.

O terceiro problema é que a desinformação aprendeu a se vestir de jornal. No fim de semana circulou uma capa falsa da Folha de S.Paulo, gerada por IA, e uma montagem com a marca de um portal gaúcho inventando uma notícia que nunca foi publicada. A Agência Lupa contou 1.423 conteúdos produzidos ou alterados por IA nesta eleição.

E os debates também não ajudaram. A Band, no dia 18, deu 15 minutos de confronto livre a cada candidato, sem mediação de jornalistas e sem checagem em tempo real. Mais de 1,16 milhão de pessoas assinaram um pedido de checagem ao vivo no debate da Globo, que preferiu checar apenas na internet. Quem assistiu pela TV não viu nada disso.

A eleição mudou, assim como a comunicação com o eleitor. Tem IA, tem plataforma e tem disputa de versão em tempo real. O jornalismo precisa acompanhar essas mudanças sem abrir mão do básico. Isso significa checar antes de publicar, explicar a pesquisa em vez de vendê-la como resultado e corrigir quando errar. É assim que se recupera a confiança do leitor, e é assim que se sustenta a democracia.

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