Na continuidade de minhas reflexões solitárias e sonhadoras, que visam despertar a consciência das nossas autoridades políticas, volto-me hoje para uma comparação que é, ao mesmo tempo, inspiradora e profundamente dolorosa. Trata-se do contraste entre o que testemunhei na consagrada Gramado, no Rio Grande do Sul, e a realidade negligenciada de minha Quixadá, no Ceará.
Gramado possui o famoso Lago Negro, um cartão-postal que é a síntese do que o planejamento e a valorização do turismo podem gerar. Um local impecavelmente cuidado, cercado por um bosque de araucárias e azaleias, que atrai anualmente cerca de 300.000 turistas. O lago oferece uma experiência organizada e encantadora: passeios de pedalinho pagos, caminhadas liberadas em vias bem conservadas, e uma integração harmoniosa entre o visitante e a natureza. É, sem dúvida, um exemplo de como um atrativo natural pode se tornar a âncora econômica de uma região.
Ao olhar para esse modelo, meus olhos e meu coração se enchem de uma angústia familiar, pois enxergo o espelho desse potencial na minha própria cidade. Quixadá possui a Lagoa do Eurípedes, um cenário de beleza ímpar e, arrisco dizer, até mais dramático e singular. No coração da cidade, um imenso monolito – a Pedra do Eurípedes – ergue-se imponente, rodeado por águas, formando quase uma ilha natural. A flora e a fauna silvestres completam um quadro que deveria ser o nosso “Lago Negro”. É um local perfeito para passeios de pedalinho, trilhas para corrida e caminhada, e piqueniques em família, proporcionando um contato agradável e revitalizante com a natureza.
No entanto, a pergunta que ecoa, desoladora, é: o que fazemos com esse tesouro? A resposta é visível e vergonhosa: poluímos. Transformamos este diamante bruto em um depósito de detritos de toda ordem, onde a negligência e a falta de educação ambiental se somam à absoluta inércia do poder público. Enquanto em Gramado se enxerga uma “mina de ouro” e se investe nela, em Quixadá deixamos a nossa mina ser soterrada pelo lixo e pelo descaso.
Esta realidade levanta uma questão crucial e perturbadora: por que é tão difícil para os nossos gestores políticos enxergarem os potenciais turísticos que estão literalmente diante de seus olhos? Parece existir uma cegueira seletiva, uma falta de ambição que condena a cidade a uma condição de eterna promessa não cumprida. Às vezes, chego a temer que haja, por trás dessa inação, uma certa complacência com o atraso, uma resignação que prefere manter Quixadá como uma cidade “apagada”, com escassez de empregos e oportunidades, a encarar o desafio e o trabalho que a transformação exige.
O desenvolvimento turístico não é uma panaceia, mas é um vetor poderoso de geração de renda, empregos formais e autoestima coletiva. Ele movimenta cadeias inteiras: comércio, hotelaria, alimentação, transporte, artesanato. Negar esse potencial é, de certa forma, negar o próprio futuro de Quixadá.
Assim, permaneço neste estado paradoxal: deprimido pela realidade presente, mas teimosamente sonhador. Sonho com o dia em que a Lagoa do Eurípedes será não um símbolo de abandono, mas o coração pulsante de uma Quixadá revitalizada. E se a atual geração de líderes parece incapaz de enxergar esse horizonte, que minha reflexão, por mais solitária que seja, possa servir como uma semente. Quem sabe não seja esta ou a próxima geração, mais visionária e determinada, que finalmente acorde para o valor da sua própria terra e transforme o sonho em realidade. Até lá, seguirei sonhando e, sobretudo de forma solitária, cobrando.
Acorda Quixadá!
“Tudo o que um sonho precisa para ser realizado é alguém que acredite que ele possa ser realizado.” (Roberto Shinyashiki)




