Piso neste chão do Cariri e sinto que a terra aqui vibra numa frequência diferente. É o tal Cajubrar, essa nação independente formada por Crato, Juazeiro e Barbalha, pulsando forte. Não é só geografia; é um estado de espírito abençoado pelo meu Padim Cícero.
Cada canto aqui tem seu cheiro e sua reza. Em Juazeiro, a fé não dorme; é o romeiro que chega com o pé poeiento e o coração cheio, é o artesão que transforma couro e madeira em promessa paga. No Crato, a cultura desce a serra, com a brisa fina e a fidalguia de quem sabe receber. E em Barbalha, ah, Barbalha…terra dos verdes canaviais e do estandarte pesado de Santo Antônio, carregado no ombro por multidões que buscam marido ou milagre.
Foi justamente lá, em Barbalha, neste último final de semana, que descobri que a poesia também se sova. Conheci a “Padoca do Petruccio” , comandada pelo Dr. Petruus, um advogado simpático de Pernambuco e de elegância rara. Ele, que chegou aqui a trabalho, acabou se alimentando dos ventos soltos dos nossos Carnavais e decidiu ficar.
Trocou a beca pelo avental para alimentar a gente com o que há de melhor. É padaria de verdade: tem filtro de barro suando frio, balança antiga, chocalho na parede e massas puras, saudáveis, feitas com a paciência que o mundo esqueceu de ter.
É o retrato do nosso comércio regional: tem de tudo um pouco e muita alma. Se falta na prateleira, o caririense te olha nos olhos e resolve: “espere um pouco que vou lá no quintal fazer agora o que o senhor quer”. É a mágica de quem não perde a viagem nem a amizade.
Enquanto a vida segue entre o pão quente e a reza, as ondas do rádio fervem. A política aqui não é assunto, é religião. De ponta a ponta, as vozes moldam a opinião deste Estado dentro do Estado. Tem o vozeirão inconfundível do Roberto Crispim, a experiência de estrada do João Hilário e a juventude do Bulhões, que mesmo com a tenra idade, já entendeu como a banda toca. Eles traduzem o calor do asfalto para o microfone.
Em ano de eleição, o Cariri vira passarela. Os pré-candidatos, de Governador a Presidente, desembarcam aos montes. Uns pela fé, outros pelo voto. O oportunismo é tanto que a memória falha. Vide o ex-presidente Bolsonaro: esteve aqui, recebeu estátua do Santo Nordestino, fez promessa e pose. Três meses depois, numa televisão nacional, disse que Padre Cícero era de Pernambuco. Levou o santo, mas esqueceu o mapa.
Mas a gafe política pouco importa para quem tem a alma blindada pela fé e o estômago forrado com o pão da Padoca. Diante da ignorância dos homens públicos sobre a nossa geografia sagrada, fico com a sabedoria do veterano jornalista Macário Batista, que encerra qualquer discussão com uma verdade absoluta:
“A Pátria do Santo é o Céu”.




