Home 1 Minuto com Sérgio Machado O buraco que fica na confiança da população com o poder público

O buraco que fica na confiança da população com o poder público

Em um primeiro momento, o impacto é físico e imediato. Depois, vem o desgaste institucional. Quando órgãos afirmam que um prédio próximo não corre risco, a pergunta que fica não é técnica, é política: em quem confiar?

Foto: Thiago Gadelha/SVM

O episódio recente no Porto das Dunas, em Aquiraz, onde uma cratera se abriu após as chuvas e resultou em vítimas, inclusive uma fatal, expõe um problema gravíssimo de infraestrutura. Mas não só isso.

Como fica a relação de confiança entre a população, o poder público e os chamados especialistas?

Em um primeiro momento, o impacto é físico e imediato. Depois, vem o desgaste institucional. Quando órgãos afirmam que um prédio próximo não corre risco, a pergunta que fica não é técnica, é política: em quem confiar?

No Ceará, onde o crescimento urbano avança em áreas sensíveis, como o litoral de Aquiraz e Caucaia, esse tipo de incidente não pode ser tratado como uma exceção ou caso isolado.

Há um histórico de ocupações aceleradas, obras feitas sob pressão e uma disputa constante por protagonismo entre gestões. Quem entrega mais, quem inaugura mais, quem aparece mais? Nesse ritmo, o cuidado com a execução, a fiscalização e a manutenção muitas vezes fica em segundo plano.

E isso não acontece só aqui.

No Brasil, tragédias como as de Petrópolis ou Maceió, “por conta das chuvas”, mostram que, quando a política prioriza o calendário eleitoral de entregar números de obras em detrimento do planejamento técnico e sustentável delas, o resultado costuma ser esse.

Agora, equipes técnicas dizem que “não há risco de danos estruturais às construções no entorno”. Em quem confiar quando a prática não sustenta o discurso? Não basta dizer que não há risco se, dias antes, o chão literalmente cedeu.

A população, sobretudo quem vive ali ou circula pela região, passa a transitar com desconfiança. E com razão. A credibilidade dos órgãos públicos não se constrói apenas com laudos, mas com transparência e segurança. Quando esses elementos falham, qualquer nova garantia soa, no mínimo, frágil.

Quando o assunto é confiança, não adianta tapar o sol com a peneira.

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