Home 1 Minuto com Sérgio Machado Augusto Cury e a distância entre a ideia e a realidade

Augusto Cury e a distância entre a ideia e a realidade

Cury entrou no estúdio tentando ocupar um espaço diferente. Sem se colocar como representante da direita ou da esquerda, apresentou-se como uma alternativa à polarização

Foto: Manoella Melo/Globo

Terminou a rodada de entrevistas da TV Globo com os candidatos à Presidência da República no Jornal Nacional. Seis candidatos, seis estilos, seis maneiras de enxergar o Brasil. Mais do que escolher quem se saiu melhor ou pior, o que fica é uma oportunidade importante para o eleitor comparar discursos, propostas, convicções e, principalmente, a capacidade de cada candidato de responder às perguntas que realmente importam.

Ontem, Augusto Cury encerrou esse ciclo.

Cury entrou no estúdio tentando ocupar um espaço diferente. Sem se colocar como representante da direita ou da esquerda, apresentou-se como uma alternativa à polarização. Falou em pacificação, educação, tecnologia, inteligência artificial, empreendedorismo e em um Estado mais eficiente.

É uma mensagem que pode encontrar espaço em um país cansado dos extremos.

Mas uma eleição presidencial não se vence apenas com boas ideias. É preciso explicar como elas serão colocadas em prática.

E foi justamente nesse ponto que a entrevista deixou algumas interrogações.

Cury apresentou propostas ousadas, como reduzir o número de ministérios, cortar cargos comissionados, ampliar o uso da inteligência artificial na administração pública, utilizar a telemedicina em larga escala e até empregar drones no combate ao feminicídio.

São propostas que chamam atenção. Mas proposta presidencial precisa passar pelo teste da realidade. Quanto custa? Quem executa? Em quanto tempo? Qual será a economia? De onde virão os recursos?

Em alguns momentos, as respostas não conseguiram acompanhar a dimensão das ideias apresentadas.

Houve também desencontros que merecem ser observados com serenidade, especialmente porque a entrevista foi posteriormente submetida à checagem de informações. A afirmação de que cada criança brasileira já nasceria com uma dívida de pelo menos R$ 50 mil, por exemplo, transformou uma conta per capita da dívida pública em uma espécie de dívida individual. É uma simplificação que pode produzir uma compreensão equivocada sobre o problema fiscal brasileiro.

Outro episódio chamou atenção quando Cury apresentou como novidade a possibilidade de beneficiários do Bolsa Família terem uma segunda renda sem perder imediatamente o benefício. A regra já existe. O problema, portanto, não está necessariamente na proposta, mas na forma como ela foi apresentada ao eleitor.

E talvez esteja aí o ponto central da participação de Augusto Cury.

Ele tem uma mensagem. Tem discurso. Tem conceitos. Tem uma tentativa clara de construir uma identidade própria. Mas ainda precisa transformar essa narrativa em um projeto de governo mais concreto, especialmente nas áreas em que o presidente da República terá de tomar decisões difíceis.

O eleitor brasileiro já ouviu muitas promessas.

Agora quer saber o preço delas.

Quer saber quem vai pagar, o que será cortado, o que será preservado e quais serão as consequências de cada escolha.

A entrevista de Cury também mostra a importância desse ciclo promovido pelo Jornal Nacional. Independentemente de preferências políticas, colocar os candidatos diante de perguntas incômodas é saudável para a democracia. O candidato pode não gostar da pergunta. Pode discordar do entrevistador. Pode considerar determinada abordagem injusta. Mas precisa estar preparado para explicar suas ideias.

E o eleitor precisa estar preparado para fazer a sua parte: ouvir além dos cortes.

Os cortes publicados nas redes sociais são importantes para ampliar o alcance do debate, mas nenhum corte consegue substituir uma entrevista inteira. Um trecho pode viralizar, provocar aplausos ou indignação. O contexto, porém, é onde a informação ganha sentido.

Depois de seis entrevistas, fica uma conclusão que vale mais do que qualquer ranking de desempenho.

O eleitor não precisa apenas de candidatos que saibam falar sobre o Brasil. Precisa de candidatos capazes de explicar como pretendem governá-lo.

Entre uma boa ideia e uma boa administração existe uma distância enorme.

É justamente nessa distância que uma eleição presidencial precisa ser decidida.

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