Se não fosse pelo meu ofício, confesso, eu já teria parado de assistir a debates.
Como jornalista, sou obrigado a acompanhar. Como eleitor e cidadão, o que vi na quarta-feira, 9, no palco do PontoPoder, na Verdes Mares, me afetou de verdade.
Um espaço pensado pra colocar propostas na mesa virou troca de acusação de “bandido”, dedo na cara, “mentiroso” pra um lado e pro outro. Ciro Gomes (PSDB) e Elmano de Freitas (PT) saíram dos púlpitos, e o mediador Inácio Aguiar precisou intervir pra reorganizar o momento. Não teve vencedor. Foi, pra mim, o pior debate da história, não pelo veículo, mas pelo posicionamento dos candidatos.
O que mais me incomoda não é o climão, é o silêncio sobre o que deveria estar em discussão.
A Funceme confirmou nesta semana o que especialistas já vinham sinalizando. O El Niño tem 93% de chance de chegar muito forte até o fim deste ano. Isso pode reduzir e deixar irregulares as chuvas justamente entre fevereiro e maio de 2027, o período que decide a safra e o abastecimento de boa parte do Ceará.
Isso não apareceu no debate.
Também não apareceu a situação dos animais de rua. A Prefeitura de Fortaleza faz mutirões de castração que atendem, cada um, algo como 200 bichos. Um esforço pequeno diante do tamanho do abandono na cidade.
Assim como não apareceu a Fortaleza que a gente encontra a cada viagem. De acordo com o levantamento do Observatório do CadÚnico, divulgado em agosto, são 12.497 pessoas em situação de rua na capital. Isso do que se tem registrado. É gente, é vida, é política pública que precisa de resposta e que não teve um minuto de atenção nesse debate.
Tem outra coisa que talvez o eleitor não saiba: os candidatos não sofrem punição nenhuma se não aparecerem no debate. A legislação eleitoral trata comparecimento como uma escolha estratégica, não como uma obrigação. E isso vale, principalmente, pra quem está na frente das pesquisas e não quer se expor a risco.
Eu sei o tamanho do esforço de montar uma estrutura dessas, com equipe, emissora, tempo de produção e disponibilidade de agendas. Quando um nome relevante falta, quem perde não é só a organização, é o eleitor, que fica sem ver o confronto de propostas que a lei garante como direito, mas não garante como obrigação de quem disputa.
Falei há uns três ou quatro meses que estávamos vivendo uma das piores eleições da nossa história, e sigo pensando assim. Acompanhando colegas de imprensa, do rádio mais simples do interior ao comunicador mais experiente da capital, vejo a mesma decepção.
Está mais do que na hora de a Justiça Eleitoral garantir que o espaço do debate cumpra a função pra qual foi criado. E, depois que essa eleição passar, é preciso reconstruir a qualidade, a honra e a moral da nossa política, porque em dois anos tem outro pleito, e quem abre o rádio, a televisão ou a rede social merece decência.
Rua, obra e presença resolvem parte disso, mas presença sem debate de verdade também não é solução. O que falta é alguém que saiba usar melhor o tempo disponível de televisão. Alguém que escolha falar sobre clima, seca, animais e gente dormindo na calçada em vez de apenas falar mal do seu adversário.






