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Debate entre Lula e Flávio Bolsonaro tem ataques, mas deixa propostas em segundo plano

No fim, fica a pergunta: se o eleitor sai do debate com mais acusações na cabeça, mas poucas respostas sobre o futuro do país, que serviço foi prestado à democracia?

O debate entre Lula e Flávio Bolsonaro, realizado pela Band, deixou uma pergunta que merece ser feita: afinal, quem saiu ganhando com esse confronto? Na minha avaliação, o eleitor perdeu uma oportunidade de conhecer melhor as propostas de quem disputa a Presidência da República.

O encontro foi marcado por provocações, acusações e embates pessoais. Temas importantes apareceram, como economia, custo de vida, corrupção, saúde e segurança pública. Mas faltou aprofundamento. Em muitos momentos, a discussão ficou concentrada em denúncias e episódios controversos, sem o tempo e a clareza necessários para que o cidadão pudesse avaliar os fatos e comparar soluções.

Lula e Flávio têm responsabilidades diferentes, trajetórias próprias e o direito de contestar o adversário. Mas acusações não são condenações, e suspeitas precisam ser examinadas com seriedade. O eleitor merece respostas, fatos verificáveis e explicações, não apenas a repetição de acusações já contestadas pelos envolvidos.

Na minha leitura, as perguntas dos jornalistas foram a parte mais consistente do encontro. Houve oportunidade de abordar questões relevantes para o país, mas o confronto direto acabou consumindo boa parte do espaço político e jornalístico que deveria ser dedicado à apresentação e à cobrança de propostas.

O formato também merece reflexão. Em vez de concentrar esforços em convencer o eleitor, os candidatos pareciam, em diversos momentos, disputar frases de efeito capazes de render cortes nas redes sociais. É uma estratégia que pode funcionar para mobilizar apoiadores, mas não necessariamente esclarece quem ainda está indeciso.

A repercussão do encontro também levanta uma questão importante sobre a cobertura política: o predomínio dos ataques e a busca por repercussão digital podem transformar o debate em combustível para a polarização, em vez de fazer dele um instrumento de esclarecimento.

O desafio é conquistar a confiança de quem ainda não decidiu seu voto. Um confronto excessivamente agressivo pode produzir o efeito contrário: cansar o eleitor, ampliar a descrença na política e até desestimular a participação de quem já não se sente representado.

Não se trata de exigir um debate sem confronto. Democracia pressupõe divergência, perguntas difíceis e cobranças firmes. O que não se pode aceitar é que a disputa pela Presidência seja reduzida a um espetáculo de ataques, enquanto questões essenciais para a vida dos brasileiros ficam em segundo plano.

O eleitor quer saber como o país será governado, quais são as prioridades, de onde virão os recursos e como as promessas serão cumpridas. Quer comparar caminhos, não apenas assistir a uma disputa de acusações.

A experiência da Band deixa uma lição para os próximos debates: é preciso repensar o formato, preservar o confronto democrático e criar condições para que as propostas tenham espaço real. A audiência e a repercussão nas redes importam, mas não podem valer mais do que a qualidade da informação.

Debate eleitoral não é ringue, nem fábrica de cortes para a internet. É um compromisso com a democracia e com o cidadão.

No fim, fica a pergunta: se o eleitor sai do debate com mais acusações na cabeça, mas poucas respostas sobre o futuro do país, que serviço foi prestado à democracia?

Respeitar o eleitor é reconhecer sua inteligência, seu direito à informação e a importância de cada voto.

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