Com o título “A cidade dos babaquaras”, eis o artigo de Demitri Túlio, veiculado no jornal O Povo Online, que aborda o sistema de capitalismo presente em Fortaleza, que não se preocupa com o meio ambiente, fazendo referências à destruição das dunas. Confira:
Tenho dó de Fortaleza. Uma Cidade mais particular do que coletiva. Mais cheia de gente preocupada com o próprio umbigo do que a vida pública do lugar onde se foi parido. E aqui, tão bom de ir levando o tempo e nadar o mar. Mas cheio de marmotas indizíveis…
Não fosse assim, um bocó não teria a coragem de bodejar que destruir uma duna é besteira. Ou que os bichos adorariam a devastação porque se livrariam da areia quente. Uma piada tão imbecil quanto a potência do interesse avaro.
E não sei por que cargas d´água ainda me admiro dos babacas que só enxergam na Cidade a possibilidade de fazer dinheiro e enriquecer até não caber mais. Encher as burras e nunca projetar a possibilidade de paridade social, de uma ética ambiental e uma Cidade boa para todos.
Depois se apavoram com as facções sanguinárias no cangote e a necessidade, desesperada, de ter de transformar o lugar onde se mora num bunker. Câmeras, rastreadores, cães, milícia de rua trepada em motos, guarda-costa, capangas, matadores de plantão…
Vejam o caso do sequestro, tortura, morte e desaparecimento do frentista João Paulo. Em 2015, o trabalhador, de 20 anos, foi abduzido por policiais militares a mando, provável, do patrão – o dono de posto de gasolina onde João tinha acabado de se empregar. E foi gravado em vídeo o momento do sumiço.
Prova esquadrinhada ainda em interceptações telefônicas pedidas pelo promotor Marcus Renan. Em rastreamento da viatura; nos depoimentos desencontrados e no corpo de João Paulo que desapareceu. Foi visto pela última vez sendo colocado, vivinho da Silva, em uma radiopatrulha de Maracanaú. Veículo clandestino em Fortaleza.
É muito mané, junto, pensando apenas na própria existência. Sentimento nada coletivo, zero de amorosidade com a Cidade e com quem dela depende 50, 80, 90 anos. Já pararam pra pensar a espécie de empresário que temos? Não todos, bom ressaltar, mas um magote considerável.
Um cara, dono de não sei quantos postos de gasolina, desconfia do funcionário supostamente envolvido com assalto lá. E em vez de procurar policiais sérios (existem aos milhares), de ir ao Ministério Público, contrata PMs “dispostos” para dar a velha “prensa” no cabra.
Uns gritos, pontapés, telefones nas orelhas, saco d´água, uma “sugesta” de morte até o “pirangueiro” confessar que executou Jesus Cristo. Mas aí dá a merda e a vítima some. E pode lavar viatura, limpar as digitais, desligar o GPS, mas as câmeras registraram…
Não vejo muita diferença entre o “bem sucedido” patrão de João Paulo e quem diz que desaparecer com uma duna é uma bobagem. Na maioria das vezes, são os mesmos que doam milhões para campanhas políticas com interesse mesquinho; que subornam funcionários públicos; que dão um jeitinho para grilar áreas públicas… As intenções se encontram.
Um povo que não respeita vaga preferencial em locais públicos e privados. Que deixa o carrinho do supermercado no estacionamento. Que molha a mão do guarda. Que não respeita fila. Que não para antes da faixa de pedestre. Que faz da calçada um lixão. Que abandona gato e cachorro em parques e praças. Que abusa de meninos e meninas. Que destrói dunas e rios…
Fortaleza merece coisa melhor, merece multiplicar o povo que não vive de matar o direito e os sonhos alheios por causa de projetos suvinos. E esse povo existe.
Repórter Ceará




