Com o título “Quixeramobim precisa valorizar a história do Conselheiro”, eis o artigo do diretor-presidente do Sistema Maior de Comunicação, Sérgio Machado, relacionado à vida do quixeramobinense Antônio Conselheiro, como também, a desvalorização que os próprios conterrâneos têm para com sua história, tão importante no cenário nacional e mundial. Confira:
Na segunda metade do século XIX, a população nordestina vivia em uma situação de verdadeira miséria. As muitas terras improdutivas que formavam a região estavam sob a posse de poucas pessoas, dos grandes latifundiários, que eram conhecidos à época como coronéis. Os sertanejos que precisavam trabalhar não tinham outra opção que não fosse submeter-se à exploração feita por esses homens poderosos, que se assenhoravam não só da terra, mas também da vida daqueles que dela dependiam.
Além do trabalho desumano e fatigante, os poucos trocados obtidos com o muito suor derramado nos currais e nas lavouras de algodão e de cana-de-açúcar só davam para comprar alguns punhados de farinha, porções de feijão e lascas de rapadura, que eram consumidos com moderação na expectativa de que durassem todo o mês, o que, para a tristeza dessas famílias, nem sempre ocorria.
Combinada com o descaso por parte do governo central, as recorrentes secas, que insistiam em castigar o solo e, por consequência, a fauna e a flora da região, contribuíam tão somente para agravar ainda mais a já deplorável situação. A segunda metade daquele século chegou a registrar, inclusive, a maior seca da história, que ficou conhecida como ” A Grande Seca” (1877) e dizimou aproximadamente 100 mil homens, mulheres e crianças.
Era comum, portanto, que diante das muitas dificuldades, os nordestinos mais pobres abandonassem seus casebres e migrassem para outras partes do Império em busca de melhores condições de vida. Esqueléticos, maltrapilhos e em bandos, que eram formatados de acordo com a composição familiar, essa gente percorria a pé, sob um sol escaldante, as milhas e milhas de solo ressequido que separavam a aridez do Norte da umidade do Sul.
Castigados por sucessivas secas, desamparados pelo poder imperial e explorados pelos coronéis, os sertanejos se firmavam na fé cristã, e dela obtinham suas forças para continuar a lutar pela sobrevivência. A mesma fé servia como o refrigério que impedia que a sequidão do meio penetrasse a incansável alma desse povo.
É nesse cenário desolador que surgem muitos líderes prometendo vida nova àquela gente. Dentre estes, têm destaque a figura de Antônio Vicente Mendes Maciel. Próximo dos seus 40 anos, com cabelos já a embranquecer, usando chapéu de palha e vestindo longos trajes que lembravam os profetas das Escrituras Sagradas, este homem começa a vagar pelos sertões pregando uma mensagem de esperança aos flagelados e comandando a edificação e a reforma de igrejas, cemitérios, calçadas, praças e açudes.
Com sua oratória messiânica, o Conselheiro conseguiu atrair milhares de sertanejos que, com ele, começaram a perambular pelos sertões em busca de uma Canaã nordestina, que pudesse acolher tantos desventurados; um espaço que lhes permitissem melhores condições de vida, a salvos da seca e dos temidos coronéis. Ou, quando não, apenas a sobrevivência. Sobrevivência esta posteriormente negada pelos que, em nome da República, destruíram o povoado de Belo Monte.
Hoje não existem mais coronéis a serem temidos e nem a necessidade de migrar para sobreviver. A seca recente, apesar da duração prolongada, não deixou sequer um morto. Mesmo com a crise, não falta emprego no município, e os serviços básicos, apesar de precários, ainda estão sendo prestados à população. Contudo, apesar das inúmeras diferenças, é possível traçar um paralelo que assemelha às duas épocas: o insistente desprezo pela trajetória do Conselheiro.
Um dos exemplos de tal desprezo, é o abandono do Memorial que carrega o nome do Conselheiro. Inaugurado há mais de duas décadas, a estrutura encontra-se inacabada e, até o presente momento, sem utilidade aparente. Seu projeto original, desenvolvido pelo renomado arquiteto Fausto Nilo, foi distorcido e tornou-se alvo de disputas que, somadas aos recursos financeiros escassos, acabaram por minar o antigo sonho de um espaço que mantivesse viva a memória do líder de Canudos.
Em março de 2014, a secretaria de Cultura e Turismo de Quixeramobim chegou a informar que o Memorial passaria por um ambicioso processo de restauração, que compreenderia desde a parte física até à hidráulica, permitindo, inclusive, a substituição das placas em baixo relevo, que contam a história de Canudos, por peças de mármore esculpidas por artesãos do município. Contudo, quatro anos já se passaram e o projeto ainda não foi executado.
Outro exemplo desse descaso cultural, é a Casa onde o Conselheiro viveu a sua infância e parte da sua vida adulta. O espaço, quenão costuma receber a atenção que lhe é devida, nem dos governantes e nem da sociedade civil, está praticamente entregue às moscas, sendo agitado, vez ou outra, por algum movimento formado por estudantes e/ou professores descontentes com a situação em que se encontra a cultura do município.
Através da valorização da vida e da luta do incansável do Conselheiro, Quixeramobim poderia ter se tornado há muito tempo um polo de cultura no meio do sertão cearense, disseminando, através das artes visuais, da literatura de cordel e da música popular, a mensagem de resistência que era transmitida pelo ilustre líder de Canudos, e promovendo, ao mesmo tempo, a expansão do turismo cultural em benefício do próprio município.
Por isso, acreditando que é possível fazer mais pela memória de Antônio Conselheiro, é que geramos o projeto “Quixeramobim do Conselheiro Antônio”, fruto de uma notável parceria entre a Fundação Canudos, integrante do Sistema Maior de Comunicação, e a Escola de Ensino Médio em Tempo Integral Coronel Humberto Bezerra, como apoio de empresas privadas e de diferentes lideranças domunicípio.
As atividades do projeto terão como foco a formação dos alunos participantes, e ocorrerão entre os dias 05 e 17 deste mês de março, compreendendo a realização de palestras, debates entre os estudantes e os professores, oficinas de grafite, aula-espetáculo e a gravação de spots diários que serão incluídos na grade da programação da rádio Canudos FM.
Com isso, nós que fazemos a Fundação Canudos, acreditamos estar dando o pontapé inicial de um movimento que tenderáa crescer e se expandir por todas as esferas da vida pública municipal,sendo capaz de transformar o modo como encaramos a trajetória de luta de Antônio Conselheiro, ilustre filho da nossa terra.
Que não nos esqueçamos que a história foi capaz de julgar e condenar as ditas forças republicanas que marcharam sobre Canudos e dizimaram a esperança de dias melhores nutrida pelo povo pobre que ali vivia. Como, então, esta mesma história não julgará a nós, conterrâneos do Conselheiro, que desmerecemos a sua vida e desprezamos a sua memória?
Sérgio Machado.




