Chaga social que assola pretas e pretos há séculos, a violência física, psicológica e institucional em função da cor da pele e da raça persiste das menores às maiores atitudes cotidianas. As recentes mortes do menino João Pedro, 14, no Rio de Janeiro; e de George Floyd, 46, nos Estados Unidos, ambas praticadas pela polícia; evidenciaram as discussões sobre racismo, nas redes sociais – e facilitaram o acesso de todos a pautas cotidianas para a parcela preta da sociedade.
Para Elissânia Oliveira, 32, professora de História e Sociologia, nascida e criada na periferia de Fortaleza, “a questão é que a classe branca não tem escutado”. “O racismo é algo que a gente sente antes de saber quem é, antes de se pensar enquanto ser preto. Na infância mesmo você começa a ser apontado como algo negativo que nem sabe o que significa. Até dentro da periferia, lugar que tem cor negra, a gente vivencia essa violência, diante de uma conjuntura que nega a nossa negritude, diz que não existimos”, desabafa.
Uma das maiores dificuldades no enfrentamento ao racismo no Ceará é reconhecer que ele existe.
“Ainda hoje se divulga a não existência de negros na construção da população cearense. É uma pergunta constante que escutamos: ‘de onde você é?’ As pessoas esperam que você responda que é da Bahia, do Rio de Janeiro, não daqui. Você nunca é um preto cearense. Ser preto aqui é nascer num lugar que apaga sua identidade”, descreve Elissânia
Esse “apagamento”, aliás, violenta de dentro para fora, como explica a professora. “Quando você se reconhece negro, começa a buscar as motivações pro preconceito que tá sofrendo. Mas tem quem vá sofrer a vida toda sem saber as razões, que ficam escondidas atrás da sutilezas do cotidiano. Estudar História me trouxe esses porquês – e isso não me deixou mais leve. Mas é mais confortável lutar contra os motivos sabendo quais são”.
Autoafirmação
A população autodeclarada negra cresceu 82% no Ceará, entre 2012 e 2018, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua 2018, publicada no ano passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O índice passou de 2,9% para 5,3% (480 mil pessoas), mas ainda é o menor do Nordeste. A maior parcela populacional cearense é a de pardos, englobando 65,7% dos habitantes – cerca de 5,9 milhões de cearenses.
Tiago Alexandre dos Santos, 21, morador da zona rural de Barbalha e mestrando em Sociologia na Universidade Estadual do Ceará (Uece), complementa que o conhecimento é ferramenta para transformar a vida da população preta. “Quando a gente questiona por que em determinadas disciplinas só lemos homens brancos, europeus e mortos, as pessoas perguntam ‘o que isso tem a ver, você não quer estudar?” Elas não conseguem entender que é esse modelo de formação que faz com que a sociedade não reconheça nem legitime pessoas pretas como pesquisadoras, por exemplo”.
Nascido na Região do Cariri cearense, o estudante relembra que os pretos são historicamente relegados às periferias.
“Me recuso a falar de abolição, porque ela não existiu – senão nem estaríamos tendo essa conversa. Fomos cerceados do direito de sonhar com a educação como uma possibilidade, ainda que entendendo a importância disso na nossa trajetória. O que a gente vai ser e a nossa permanência na escola e na universidade depende de diversos fatores externos e históricos”, reflete Tiago.
As formas distintas como o racismo se manifesta dentro e fora do ambiente universitário, segundo o estudante, são igualmente violentas. “O racismo perpassa todas as relações, pretos sofrem em todos os lugares. Tá na pele. A diferença é que na universidade tem essa sutileza, a ideia de que ‘somos todos iguais, humanos’. Quando eu saio de lá, eu e o preto que trabalha na fábrica encaramos a rua do mesmo jeito. Ambos seremos parados pela polícia e chamados de vagabundos”.
Repórter Ceará – G1 (Na foto, a professora Elissânia Oliviera/Arquivo Pessoal)




