Home Fabrício Moreira da Costa Crônicas do Café do Toim

Crônicas do Café do Toim

Hoje, a imprensa cearense parece ter esquecido o ofício. Faltam ouvidos nas ruas, sapatos gastos de tanto andar atrás da notícia, cheiro de papel fresco na gráfica ou no mundo novo da virtualidade e a fome de furo jornalístico

Foto: Reprodução

Se eu fosse jornalista, radialista ou comunicador do cotidiano e trabalhasse pelos corredores da Assembleia Legislativa, creio que vocês saberiam de tudo que acontece em todo o Ceará.

Bastava ficar atento às falas e aos movimentos dos Deputados Estaduais, pois 46 têm assento na Casa do Povo, com representação da capital, dos sertões, do mar, do sol, dos ventos, das veredas e das favelas.

Tem os que discursam. Os que soltam pérolas. Detalhes, fuxicos políticos, adesões, divórcios, quem vence e quem perde, quem faz boa gestão e até mesmo aqueles que foram eleitos em algum recanto do Ceará, mas não sabem se hoje é segunda ou domingo, ainda.

Tem os deputados mudos de Tribuna. Mas esses são os que mais falam no “Café do Toim”. Quando cheguei à Assembleia Legislativa, com o então vibrante deputado Domingos Filho em 1995, eu sabia de tudo que ocorria no Ceará, tal qual os jornalistas do saudoso Tribuna do Ceará, que, através de várias colunas, nos diziam tudo.

Por lá, ainda jovem e ao lado dos veteranos, criamos o “Folclore Político” no finado TC do Afonso Sancho. Era uma delícia de leitura, somada a tantas outras. Ora, sou cabra da peste do meu Ceará! Se for pra ler economia, política internacional, guerras e brigas de fuzis, já temos os matutinos nacionais e as TVs Globo, Record, Band, SBT, etc.

Que saudades do Antônio Viana, matuto sabido do Tauá, que bem sabia capturar esses bastidores da ALECE, juntando o café do Toim com o da Joana e era um sucesso na rádio Dragão do Mar de Fortaleza.

Cadê os nossos jornalistas? Voltem a escrever e a ouvir o que ocorre em todos os quadrantes do Ceará. Caso contrário, seremos apenas mensageiros de notícias de whatsApp que não têm cheiro de café.

Hoje, a imprensa cearense parece ter esquecido o ofício. Faltam ouvidos nas ruas, sapatos gastos de tanto andar atrás da notícia, cheiro de papel fresco na gráfica ou no mundo novo da virtualidade e a fome de furo jornalístico.

Infelizmente, resta uma repetição preguiçosa de releases e notas alheias, um jornalismo de copiar-colar que não é audacioso, não investiga, não duvida, nem emociona. Tornou-se um eco pálido das redes sociais, onde a manchete já nasce com cheiro de ontem. E onde há silêncio, nas brechas do poder, aí sim mora a notícia que ninguém mais vai buscar.

Não se faz mais um repórter como os de antigamente. Aqueles que cheiravam nos bastidores, que tinham fontes nos porões, que sabiam ler um olhar atravessado na tribuna e transformavam isso numa crônica quente e provocativa.

O Ceará merece mais que isso. Merece uma imprensa que pense, duvide, conte e reconte, com coragem, café e verdade.

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