Home Wanderley Barbosa Agronegócio: Dominar o semiárido exige conhecimento e principalmente vontade política

Agronegócio: Dominar o semiárido exige conhecimento e principalmente vontade política

Há décadas, instituições como a Embrapa Semiárido desenvolvem e comprovam técnicas eficazes para a criação de rebanhos mesmo sob o sol escaldante

Foto: Wanderley Barbosa

Enquanto Israel, um país com desertos onde chove até cinco vezes menos do que no Nordeste brasileiro, se torna uma potência agrícola exportadora, muitos agricultores do sertão ainda enfrentam a fome em uma terra com mais recursos hídricos. Essa aparente contradição esconde uma verdade simples e, ao mesmo tempo, complexa: já sabemos como conviver com o semiárido. O que falta, muitas vezes, é vontade política e valorização do conhecimento que já existe na própria região.

Há décadas, instituições como a Embrapa Semiárido desenvolvem e comprovam técnicas eficazes para a criação de rebanhos mesmo sob o sol escaldante. O cardápio forrageiro é vasto e resiliente: palma forrageira (altamente nutritiva e resistente), maniçoba, gliricídia, leucena, moringa (a “árvore milagrosa”) e tantas outras nativas ou já perfeitamente adaptadas. Elas suportam a seca, exigem pouca água e garantem a alimentação animal, que é a base da economia local.

O grande entrave, no entanto, não é técnico. É cultural e político. Nos municípios do sertão central cearense, como em tantos outros, existe um exército de técnicos agrônomos, zootecnistas e produtores experientes que dominam na prática esse conhecimento. São profissionais que poderiam ser os grandes agentes de transformação, levando soluções diretamente aos pequenos, médios e grandes produtores.

Um caso emblemático acontece em Quixadá. Francisco “Chiquinho Saraiva” é reconhecido regionalmente como um dos maiores especialistas em palma forrageira. Produtor rural e estudioso incansável, ele recentemente se deslocou até Petrolina (PE) para participar de cursos e se atualizar no maior evento sobre convivência com o semiárido na Embrapa. Chiquinho volta para casa transbordando informações, técnicas modernas de plantio, manejo e nutrição animal.

A pergunta que não cala é: por que esse conhecimento não é aproveitado? Por que as secretarias municipais de agricultura não contratam, não consultam e não levam um especialista como Chiquinho para capacitar outros produtores? Infelizmente, seu expertise é sistematicamente desprezado pela administração pública local.

Esse desdém é mais do que uma simples falha de gestão; é um sintoma de uma “cultura do desprezo e da inferioridade” que precisa ser urgentemente erradicada. É a ideia de que o saber local, o conhecimento nascido do chão da caatinga, tem menos valor que um diploma numa pasta ou uma solução importada de realidade alheia. Enquanto isso, os produtores rurais, principalmente os pequenos, são os que mais perdem, ficando vulneráveis às intempéries e à insegurança alimentar.

A solução passa por uma ruptura. É preciso que os gestores públicos enxerguem nos Chiquinhos Saraivas de cada cidade o maior patrimônio para o desenvolvimento regional. São eles que entendem as dificuldades porque as vivem e, o mais importante, já encontraram as soluções.

Valorizar esse conhecimento é criar programas de capacitação ministrados por esses especialistas locais, é contratar consultorias técnicas deles para as prefeituras, é promover dias de campo em suas propriedades-modelo. É, acima de tudo, reconhecer que a verdadeira convivência com o semiárido começa com o respeito à inteligência e à experiência de quem nunca desistiu dele.

O semiárido não é um problema. É uma realidade cheia de potencial. E a chave para desbloquear esse potencial não está em um laboratório distante, mas muitas vezes, bem ao lado, esperando apenas ser vista e valorizada.

ACORDA QUIXADÁ! ACORDA SERTÃO CENTRAL!

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