O fenômeno ufológico, ao transcender as fronteiras do conhecido, cria narrativas poderosas que, quando capturadas pela astúcia coletiva ou pela visão estratégica, podem se transformar em potentes vetores de desenvolvimento. O emblemático caso de Varginha, Minas Gerais, é um estudo de manual sobre como uma comunidade e seus líderes podem alquimiar o burburinho do mistério em moeda concreta de progresso. Não foi apenas um “evento” que catapultou a cidade ao palco global; foi a capacidade de gestão da narrativa.
Varginha soube fazer o dever de casa onde muitos falham: primeiro, entendeu o valor simbólico e midiático do ocorrido. O título autoatribuído de “segundo caso ufológico mais relevante do mundo” não é mero acidente; é fruto de uma construção persistente, alimentada pela mídia nacional (com a Rede Globo, através do Fantástico (ontem e hoje), atuando como megafone periódico que reaviva o interesse) e por uma estratégia de marketing territorial audaciosa.
A construção do Memorial do ET é o ápice material dessa estratégia. Não é apenas um museu; é um santuário cívico do inexplicável, um ponto de convergência que transforma a curiosidade abstrata em visitação paga, geração de empregos, movimentação de comércio e hospedagem. Varginha não vende apenas uma história; vende uma experiência, um lugar no imaginário global.
É justamente nesse contraste que a minha angústia sobre a minha Quixadá, no Ceará, se torna tão aguda e justificada. A cidade possui ingredientes talvez ainda mais ricos: paisagens surrealistas de monólitos que parecem cenários naturais para o contato interplanetário, um acervo diversificado de registros e relatos (incluindo abduções), e até a chancela pop cultural de ter inspirado um filme hollywoodiano, Área Q. No entanto, esse potencial permanece adormecido, esparso, desconectado. A pergunta que se impõe não é “por que não dão certo?”, mas sim: onde está a falha na tradução do ativo em produto?
A resposta parece residir em uma miopia política crônica e numa desarticulação entre o potencial e a ação pública. Enquanto em Varginha o fenômeno foi abraçado e institucionalizado, em Quixadá ele parece ser tratado como folclore marginal, um detalhe pitoresco e não um eixo estratégico. A falta de visão manifesta-se na ausência de iniciativas concretas:
- Falta de Narrativa Unificada: Não há um esforço para criar uma “Marca Quixadá Ufológica” clara. Os registros são soltos, as histórias não são compiladas e apresentadas de forma profissional e atraente.
- Ausência de Infraestrutura e Produto Turístico: Onde está o roteiro das aparições? O mirante noturno para observação de UFOs? O centro de interpretação que una a geologia única dos monólitos com os relatos ufológicos? Onde está a articulação com o cinema, promovendo locações do filme Área Q? Potencial não vira atração sem investimento e projeto.
- Descaso com o Patrimônio Imaterial: As histórias de abdução e avistamentos são um patrimônio imaterial riquíssimo. Ignorá-las é como uma cidade litorânea ignorar suas lendas de sereias. É deixar de lado uma ferramenta poderosa de conexão emocional com o visitante.
- Inércia e Falta de Ousadia: Os gestores públicos de Quixadá parecem presos a um modelo tradicional e limitado de turismo (focado apenas na paisagem estática e um forró na praça), sem perceber que o turista contemporâneo busca experiências, enigmas e imersão em narrativas. A miopia é ver as pedras e não ver os discos voadores que (supostamente) pairam sobre elas.
Quem perde com isso? A população, de forma inconteste. Perde oportunidades de emprego, de movimentação econômica, de inserção no mapa turístico nacional e internacional. Perde o orgulho de ver sua peculiaridade reconhecida e valorizada. Enquanto Varginha colhe os dividendos de ter ousado criar um futuro a partir de um mistério, Quixadá arrisca-se a assistir, passivamente, a um outro tipo de desaparecimento: o de seu próprio potencial, abduzido não por extraterrestres, mas pela falta de visão de seus gestores terrestres.
A reflexão final é amarga: não é a ausência de recursos ou de atrativos que condena uma cidade ao ostracismo do desenvolvimento. É, acima de tudo, a ausência de coragem para narrar sua própria história de forma extraordinária e a incapacidade de transformar o invisível (sejam luzes no céu ou ideias na mesa de planejamento) em alicerce para um futuro tangível. O caso de Varginha prova que é possível. A situação de Quixadá lamentavelmente ilustra que, sem vontade política e visão estratégica, até o mais deslumbrante dos potenciais pode permanecer eternamente… em estado de quarentena.
“É hora de acordar, políticos, para o desenvolvimento da minha linda cidade, Quixadá!”
