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Inverno acima da média e leis fora da realidade: o sertão alerta para 2026

Para o secretário, no entanto, a leitura do clima não pode se limitar apenas à ciência. Ele defende que Deus concedeu ao homem duas ferramentas fundamentais: a inteligência, que vem do estudo, e a sabedoria, construída na observação diária da natureza

Foto: Claudenice Ramalho/SMC

O ano de 2026 começa cercado de expectativas e preocupações no sertão cearense. Em entrevista ao Programa Repórter Ceará, da Rádio Campo Maior AM 840, o secretário de Agricultura, Dr. José Maria Pimenta, fez uma análise que vai além dos dados técnicos e coloca em debate a convivência entre clima, fé, natureza e políticas públicas. Segundo ele, os principais institutos meteorológicos do Brasil, a partir da observação de fenômenos como a La Niña, indicam a possibilidade de um inverno acima da média no Ceará. Essa previsão ganha ainda mais força quando associada à série histórica de 130 anos de medição de chuvas em Quixeramobim, uma das mais consistentes do país, cujo modelo aponta 75% de probabilidade de chuvas dentro ou acima da normalidade.

Para o secretário, no entanto, a leitura do clima não pode se limitar apenas à ciência. Ele defende que Deus concedeu ao homem duas ferramentas fundamentais: a inteligência, que vem do estudo, e a sabedoria, construída na observação diária da natureza. Escutar os pássaros, observar as águas e compreender os sinais naturais continuam sendo, segundo ele, caminhos essenciais para entender o comportamento das chuvas no sertão, prática preservada por gerações de agricultores e profetas da chuva.

Apesar da possível boa quadra invernosa, Dr. José Maria fez um duro desabafo sobre a ausência histórica de políticas estruturantes para o semiárido, especialmente no que diz respeito à construção de pequenos açudes. Há mais de 30 anos, segundo ele, o apelo é feito sem que os governos avancem de forma concreta. Enquanto países com regiões desérticas, como China, Rússia e áreas do Saara, investem massivamente em pequenos reservatórios, o Ceará ainda convive com a falta de iniciativas efetivas. A esperança recente vem da aprovação, no Congresso Nacional, de um projeto que cria o programa de pequenos açudes e açudes inteligentes. A expectativa é que os recursos cheguem a Quixeramobim e possibilitem a construção de pelo menos mil reservatórios, fortalecendo a segurança hídrica do município.

Outro ponto central da entrevista foi a crítica contundente às leis ambientais, consideradas desconectadas da realidade do Nordeste. Para o secretário e para o jornalista Erivelton Barbosa, as normas são aplicadas de forma generalizada, sem considerar as diferenças entre regiões como Ceará, Pará, Paraná ou Mato Grosso. O resultado, segundo eles, é o sufocamento do pequeno produtor rural. Dr. José Maria relatou que, em recente deslocamento entre Quixeramobim e o Apodi, não viu uma única roça plantada por agricultores familiares, reflexo direto das restrições ambientais que impedem o manejo da terra, a abertura de áreas para plantio e até o acesso do gado à água em rios e açudes.

A crítica ganha tom de alerta quando se discute a pecuária. De acordo com as regras atuais, o criador enfrenta limitações para utilizar áreas próximas a cursos d’água, o que, na prática, inviabiliza a criação. “Gado não come pé de pau, come folha”, destacou Erivelton Barbosa, ao lembrar que a vegetação da caatinga é completamente diferente da do Sul do país. Em tom irônico, mas preocupado, Dr. José Maria afirmou que, se nada mudar, o produtor será obrigado a dar água ao gado “em mamadeira”, diante das exigências cada vez mais distantes da realidade sertaneja.

O apelo final da entrevista é claro: é urgente que deputados, senadores e autoridades ambientais promovam um debate sério, regionalizado e responsável sobre a legislação ambiental. Para os entrevistados, preservar o meio ambiente é fundamental, mas isso não pode significar a destruição da agricultura familiar, da pecuária e da sobrevivência do homem do campo. Como lembrava a escritora Rachel de Queiroz, citada pelo secretário, “uma fazenda que não tem um açude não é uma fazenda, é um terreno”. No sertão, a água, a terra e o produtor precisam caminhar juntos para que 2026 seja, de fato, um ano de esperança e não de abandono.

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