Eu o vi atuando. Conheci-o pessoalmente. Tive o gáudio de apertar sua calorosa mão. Era o dia 15 de novembro de 1981. Ele chegara ao meu torrão-berço, Crateús, para comandar uma histórica concentração política. Distávamos exatamente um ano das eleições de 1982. Ulysses Guimarães anunciou profeticamente, no palco da Coluna da Hora da minha polis natal, que principiava a contagem regressiva para mais uma vitória. Triunfante ele era. Mesmo em 1973, quando se lançou como o anticandidato, foi um derrotado vitorioso. Ali, espancou as trevas, pois era um candeeiro. Iluminava as adjacências. Dele emergia uma autoridade natural. Possuía aquela aura de respeitabilidade dos grandes líderes. Suscitava um sentimento de temor, próprio de quem pertencia à genealogia dos vulcões. Dele brotava, como uma cachoeira, a “imantação misteriosa e sedutora, irresistível, temperada de respeito e admiração.”
De natureza sui generis, era também um condoreiro. Fulgurante arquiteto das palavras, sabia dispô-las da forma mais magnética. Esgrimia com genial maestria na arena dos debates: “Política não se faz com ódio, pois não é função hepática. É filha da consciência, irmã do caráter, hóspede do coração. Eventualmente, pode até ser açoitada pela mesma cólera com que Jesus Cristo, o político da Paz e da Justiça, expulsou os vendilhões do Templo. Nunca com a raiva dos invejosos, maledicentes, frustrados ou ressentidos. Sejamos fiéis ao evangelho de Santo Agostinho: ódio ao pecado, amor ao pecador. Quem não se interessa pela política, não se interessa pela vida.”
O que diria Ulysses Guimarães se estivesse entre nós, na aurora deste 2026?! Certamente repetiria o que bradou na promulgação da Carta Magna: “A Nação nos mandou executar um serviço. Nós o fizemos com amor, aplicação e sem medo. A Constituição certamente não é perfeita. Ela própria o confessa, ao admitir a reforma. Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim. Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca. Traidor da Constituição é traidor da Pátria. Conhecemos o caminho maldito: rasgar a Constituição, trancar as portas do Parlamento, garrotear a liberdade, mandar os patriotas para a cadeia, o exílio, o cemitério.”
Se o indagássemos, qual a primeira virtude de um Estadista, ele responderia de bate-pronto: “Churchill afirmou que, das virtudes, a coragem é a primeira. Porque, sem ela, todas as demais, a fé, a caridade, o patriotismo, desaparecem na hora do perigo. Há momentos em que o homem público tem que decidir, mesmo com risco de sua vida, liberdade, impopularidade ou exílio. Sem coragem não o fará.”
Eis o que ele dizia sobre a Ordem: “São Tomaz de Aquino disse que a ordem é ‘as coisas no seu lugar’. Para isso é preciso hierarquizar e selecionar. É a capacidade de escolher. Quem confunde as coisas, desconhece prioridades, não tem senso de ordem. O estadista não atende para agradar mas porque é justo. E tem a coragem de descontentar, até amigos e parentes. O estadista quer a ordem justa, não a ordem imposta, guarda pretoriana de privilégios. Contemplando os milhões de despossuídos e injustiçados, Charles Maurras exclamou: ‘O que me espanta é a ordem, não a desordem’. O estadista se antecipa à rua na solução dos problemas sociais. Está com a rua, mas não na rua.”
Suas orientações sobre o Homem de Estado permanecem atuais: “Estadista é o arquiteto da esperança. Não é coruja que só pia agouro nem Cassandra de catástrofes. Sua legenda é a do herói francês: ‘Estou cercado. Eu ataco’. O estadista é o salvador. (…) Não há estadista burro. Há de ser talentoso, embora possa não ter cultura. Tiradentes e Juarez não tiveram cultura, mas foram estadistas, porque tiveram talento político. Como o samba, o talento não se aprende na Academia. A pessoa é gratificada com o talento. Talento é o dom de acertar. A política é a arte do bem-estar e da salvação popular. Político é aquele que tem talento para consegui-lo.”
Ulysses Silveira Guimarães. Em um outubro, dia 06 de 1916, veio ao mundo e em outro outubro, dia 12 de 1992, se foi. Grande como o mar, há 34 anos sucumbiu à imensidão do oceano. Dos parlamentares brasileiros, foi indubitavelmente um dos mais excelsos. Tinha majestade na alma. Por isso, desapareceu na enseada dos nobres, a Angra dos Reis.




