O cinema brasileiro acaba de escrever mais um capítulo de sucesso internacional. Na noite de ontem, 11, em Hollywood, o país celebrou a dupla conquista do Globo de Ouro de Melhor Ator para Wagner Moura e de Melhor Filme de Língua Não Inglesa “O agente Secreto”, reforçando o talento e a capacidade narrativa da nossa produção audiovisual. Esse momento de glória é a ponta de um iceberg histórico, uma trajetória que começou ainda no século XIX e que, em seus mais de 130 anos, passou por fases de ouro, crises profundas e renascimentos.
A jornada começou em 1896, com as primeiras exibições no Rio de Janeiro, e teve seu marco fundador em 1898, com as filmagens pioneiras de Afonso Segreto. Nas décadas seguintes, o cinema nacional estruturou-se, viu nascerem as primeiras salas e os primeiros filmes de ficção, como Os Estranguladores (1908), para depois enfrentar a dominante concorrência estrangeira.
Os anos 1930 e 1940 foram marcados pelo surgimento do som e pelo fenômeno de popularidade da Chanchada, impulsionada por estúdios como a Cinédia e, posteriormente, a Atlântida, com suas comédias musicais recheadas de carnaval e humor. Na sequência, a ambiciosa Vera Cruz (anos 50) sonhou em igualar Hollywood e nos deu obras-primas como O Cangaceiro (1953), vencedor em Cannes, ainda que seu modelo de negócio não tenha vingado.
A virada artística e política veio com o Cinema Novo (anos 60), movimento liderado por Glauber Rocha e seu lema “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Com filmes como Deus e o Diabo na Terra do Sol e Vidas Secas, o movimento colocou a miséria e as contradições sociais no centro da narrativa. Paralelamente, brotavam o Cinema Marginal, de estética anárquica, e a prolífica Boca do Lixo paulistana, berço das populares Pornochanchadas.
Após o desmonte das políticas públicas nos anos 1990 (presidente Color), que culminou com o fim da Embrafilme, o cinema nacional passou por um período de quase extinção. Sua revitalização veio com a Retomada, a partir de novos incentivos como a Lei do Audiovisual, permitindo que o século XXI fosse iniciado com uma produção diversa e em busca constante de sua identidade e espaço.
Quixadá: Um pedaço do Ceará na história do cinema
Nessa rica tapeçaria nacional, a cidade de Quixadá, no Ceará, tem seu fio de história entrelaçado. Em 1960, os imponentes monólitos que circundam a cidade foram “descobertos” pelo cinema, servindo como cenário grandioso e árido para o longa-metragem A Morte Comanda o Cangaço. Desde então, a paisagem única de Quixadá atraiu produções, e sua população desenvolveu um carinho especial pela sétima arte.
Um nome se destaca nessa trajetória local: Clébio Viriato Ribeiro. Cineasta quixadaense que dedicou sua vida ao audiovisual, dirigiu vários longas e teve sua última obra, “A Lenda do Gato Preto”, reconhecida e premiada, provando que talento e narrativas potentes também brotam no interior.
O questionamento que fica: Por que não olhamos para essa vocação?
Diante de um histórico nacional vitorioso e de uma bagagem local significativa, surge uma pergunta inevitável e urgente para Quixadá: por que não apostamos com mais energia no turismo cinematográfico?
A cidade possui um patrimônio natural cinematográfico (os monólitos), uma história comprovada como locação, talentos nascidos em seu solo e uma comunidade com interesse. No entanto, carece de uma política estruturada para transformar esse potencial em desenvolvimento econômico e cultural sustentável.
Por que não temos, pelo menos, um festival de cinema anual? Um festival poderia ser o catalisador desse processo. Seria um ponto de encontro para exibir filmes regionais e nacionais, promover oficinas, debates, atrair turistas, investidores e a imprensa. Cidades menores que abraçaram suas vocações audiovisuais colhem frutos significativos em visibilidade e geração de renda.
O sucesso brasileiro no Globo de Ouro (2026) e no Oscar (2025) é um farol. Mostra que nossas histórias têm valor universal. Para Quixadá, é a hora de olhar para seus monólitos, para sua história e para seus artistas, e enxergar neles não apenas um belo cenário do passado, mas um palco cheio de oportunidades para o futuro. Despertar esse potencial é mais do que um projeto cultural; é um investimento inteligente na identidade e na economia da cidade. A câmera está rolando. Cabe à cidade decidir se será coadjuvante ou protagonista dessa história.
“Acordem, políticos quixadaenses! Coloquem em suas mentes o DESENVOLVIMENTO da cidade.”




