A realidade de Quixadá e das cidades do Sertão Central cearense é paradoxal: enquanto nos bastidores fervilham iniciativas sociais, culturais, ambientais, agronegócio e econômicas transformadoras, a narrativa pública dominante parece ancorada na politicalha, na violência e no fracasso. Esse abismo entre o que acontece e o que é noticiado não é um mero acaso, mas o resultado de uma rede de comunicação doente, que reforça um ciclo vicioso de desinformação e desesperança.
O erro central dessa desinformação é estrutural e cultural. De um lado, há uma desconfiança histórica e uma falha de estratégia por parte das instituições (públicas, privadas e do terceiro setor), que não compreendem a imprensa como aliada na construção de uma imagem pública positiva. O medo do escrutínio, a cultura do secretismo ou a simples falta de profissionalismo em comunicação fazem com que boas ações permaneçam no anonimato.
De outro, a imprensa tradicional, muitas vezes, opera sob uma lógica perversa: a da audiência a qualquer custo. Em um contexto de recursos escassos e competição feroz com as redes sociais, o caminho mais fácil é priorizar o que choca, o que gera indignação imediata e, sobretudo, o que se alinha a narrativas políticas polarizadas. A “politicalha” e a violência tornam-se commodities noticiosas de fácil consumo e alto engajamento, criando uma distorção da realidade que amplifica o mal e invisibiliza o bem.
Esse fenômeno é agravado pelo algoritmo das redes sociais, que premia a reatividade emocional — frequentemente negativa. A “cultura do negativo” não é apenas uma escolha editorial, mas um modelo de negócios digital. O resultado é um envenenamento do psicológico coletivo: uma sociedade que, constantemente bombardeada por notícias de desgraça e corrupção, desenvolve ansiedade, desesperança e ceticismo mórbido, afastando-se da noção de comunidade e de futuro compartilhado.
É nesse cenário que iniciativas como o Ecossistema de Comunicação Digital “Foco no Assunto” emergem como um contraponto audacioso e necessário. Ao assumir conscientemente o papel de cultuar os bons costumes, valorizar as soluções e iluminar as ações positivas dos bastidores, esse projeto faz mais do que jornalismo: ele realiza uma intervenção psicossocial. A tese é clara e robusta: o que consumimos midiaticamente molda nosso estado mental e nossa visão de mundo. Oferecer conteúdo construtivo, equilibrado e enaltecedor do que funciona é um antídoto contra a maré de negatividade e um investimento na saúde mental da coletividade.
A mudança exigida, portanto, é profunda. Não se trata de fazer propaganda edulcorada ou ignorar os problemas, que são reais e precisam ser criticamente apurados. Trata-se de redefinir a pauta, o critério de relevância e o compromisso ético com a sociedade. A imprensa local precisa:
- Buscar ativamente as notícias positivas, criando canais de confiança com instituições e agentes de mudança.
- Equilibrar a balança noticiosa, entendendo que uma comunidade informada sobre suas próprias capacidades é uma comunidade fortalecida para resolver seus próprios desafios.
- Resistir à tentação fácil do sensacionalismo político e da violência como únicos motores de audiência.
Para Quixadá e o Sertão Central, a oportunidade é histórica: construir uma nova narrativa identitária, não baseada no déficit, mas no potencial; não no ruído da politicalha, mas no trabalho silencioso que constrói cidades mais justas e criativas. O “Foco no Assunto” acerta ao colocar o dedo nessa ferida e propor um caminho diferente. Cabe agora à sociedade apoiar, cobrar e consumir esse tipo de comunicação. Pois, no fim, a história que contamos sobre nós mesmos é o primeiro passo para o futuro que desejamos construir.
“Tudo o que um sonho precisa para ser realizado é alguém que acredite que ele possa ser realizado.” (Roberto Shinyashiki)
