O Brasil não trouxe a estatueta dourada do Oscar para casa na noite deste domingo, 15, mas o saldo da participação nacional na 98ª edição da premiação dificilmente poderia ser mais celebrado. O país concorreu em cinco categorias e, mesmo sem vencer, consolidou um marco histórico: nunca antes o cinema brasileiro esteve tão representado na principal cerimônia do cinema mundial.
O grande destaque foi o filme “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho. O longa pernambucano concorreu em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Direção de Elenco — esta última uma categoria inédita na premiação. Apesar do favoritismo em algumas bolsas de apostas, a produção saiu de mãos abanando. O prêmio de Melhor Filme Internacional ficou com o norueguês “Valor Sentimental”, enquanto Michael B. Jordan levou a estatueta de Melhor Ator por “Pecadores”, superando Moura.
A quinta indicação brasileira veio com o diretor de fotografia Adolpho Veloso, que concorria pelo americano “Sonhos de Trem”. Veloso, que já havia vencido o Critics Choice Awards e o Satellite Awards por este trabalho, perdeu a disputa para “Pecadores” na categoria de Melhor Fotografia .
Especialistas apontam que, para além das estatuetas, o feito de 2026 resgata um protagonismo que o cinema brasileiro não via desde 1999, quando “Central do Brasil” concorreu em duas categorias. Desta vez, o país não só emplacou um filme na principal categoria (algo raro), como também viu Wagner Moura se tornar o primeiro ator brasileiro a concorrer ao prêmio de Melhor Ator.
“O Brasil viveu um apagão cultural nos últimos anos, com cortes sucessivos de investimentos. Ver um filme como O Agente Secreto, com uma identidade tão local, chegar ao Dolby Theatre é uma prova de resistência”, avaliou a crítica de cinema durante a transmissão ao vivo.
As indicações deste ano acendem um sinal de alerta positivo sobre a necessidade de repensar as leis de incentivo à cultura no Brasil. Após anos de desmonte e falta de políticas públicas robustas para o setor, o cinema brasileiro volta a despontar no exterior, mas ainda enfrenta gargalos internos.
Há um consenso entre produtores culturais de que o modelo de incentivo precisa ser cirúrgico. Defende-se que os recursos públicos sejam direcionados prioritariamente para artistas não consagrados e novos talentos. A lógica é simples: artistas já estabelecidos — como grandes diretores ou atores globais — conseguem com mais facilidade patrocínios privados via leis de incentivo fiscal de grandes empresas, enquanto os iniciantes dependem quase que exclusivamente do fomento público para existir.
Se queremos que daqui a dez anos novos “Wagner Mouras” e novos “Kleber Mendonças” surjam, é preciso plantar a semente hoje. O investimento precisa chegar na base, nos curtas-metragens, nas mostras de cinema do interior e nos jovens que estão pegando uma câmera pela primeira vez.
Quixadá: um cenário pronto para as telas e para o turismo
Falando em novos talentos e na busca por descentralizar a produção cultural, o Ceará desponta como um celeiro de potencial inexplorado. O município de Quixadá, por exemplo, já demonstrou sua vocação para a sétima arte. Famosa por seus imponentes monolitos e paisagens únicas, a cidade já serviu de cenário para nove longas-metragens — incluindo a produção internacional “Área Q” (2011) — além de centenas de curtas e vídeos. A geografia local oferece um espetáculo visual que poucas locações no mundo conseguem reproduzir, funcionando como um verdadeiro estúdio a céu aberto.
O potencial turístico e cultural disso é imenso. O poder público municipal, em conjunto com a iniciativa privada, poderia dar o primeiro passo rumo à criação de um festival anual de cinema em Quixadá. A Serra do Estevão, com sua imponência, poderia abrigar mostras competitivas, oficinas e laboratórios de criação, atraindo olhares de todo o país.
Não se trata apenas de filmar, mas de criar um ecossistema. Um festival movimenta a economia local (hotéis, bares, guias turísticos), coloca a cidade na rota cultural e inspira os jovens a contarem suas próprias histórias. Que o exemplo das cinco indicações ao Oscar sirva de combustível para que Quixadá e outras cidades brasileiras possam, literalmente, entrar em cena.
