Home Júnior Bonfim A chuva merece uma crônica

A chuva merece uma crônica

Quando as nuvens se aglomeram, nossas veias se empoderam. A terra abre o umbigo e exala um perfume antigo. A terra, poderosa maestra, rege a invisível orquestra. O povo sorri e fica mais terno para celebrar o inverno. Pela chuva, no mastro do sertão, tremula a bandeira da gratidão!

O céu, finalmente, começa a derramar lágrimas de alegria! Esparramam-se os primeiros fios celestes. Caindo como uma luva, desce a abençoada: a chuva! O sertanejo a recebe como uma fruta rara, tipo uva, e a saúda com gritos de “Viva a Chuva!”

Nós cearenses vemos a chuva como um desses preciosos elementos mais plenos de identidade com os nossos sentimentos de maior intensidade. Passamos dias e meses com a mente ativa e pensativa sob o embalo de uma comovente expectativa. Talvez por ser recorrente, entre nós, os períodos de escassez (como algo que fere a tez), a chuva faz rebentar nos descampados das nossas almas os ares mais elementares, os simbolismos mais compensadores e superiores.

Quando mirava o azul da infância, adorava festejar a chegada do inverno. Longos banhos: uns violentos, outros ternos. Disputando emocionado as biqueiras das calhas dos telhados, acompanhava aquele silencioso alarido e me sentia como que rejuvenescido ao oferecer o corpo ao envolvente açoite do látego líquido.

Música celestial que movimenta os nossos corações, a chuva sugere à memória popular a sacralidade de um evento litúrgico prenhe de emoções. Ela vem como uma resposta às preces silenciosas de um povo que aprendeu caminhar, com impulso de criança, sobre um fio tênue e delicado chamado esperança.

Em Confesso Que Vivi, seu livro de memórias, Pablo Neruda pontua: “Começarei por dizer, sobre os dias e anos de minha infância, que meu único personagem inesquecível foi a chuva. A grande chuva austral que cai como uma catarata do Polo, desde o céu do Cabo de Hornos até a fronteira. Nesta fronteira, o Far West de minha pátria, nasci para a vida, para a terra, para a poesia e para a chuva (…) A chuva caía em fios como compridas agulhas de vidro que se partiam nos tetos, ou chegavam em ondas transparentes contra as janelas, e cada casa era uma nave que dificilmente chegava ao porto naquele oceano de inverno.”

Elemento presente na mundial literatura, a chuva foi cantada e decantada por muitos amantes da cultura. Passeando pela música e pela poesia, alguns extraíram da chuva a mágica da fantasia. Um dos que fizeram isso sob a excelência da bondade foi um ruivo padre italiano chamado Antonio Vivaldi. (Gestado em Veneza, cresceu vocacionado para a beleza. Isso talvez explique sua grandeza.) Há cerca de trezentos anos compôs uma clássica obra povoada de vibrantes emoções: quatro concertos, As Quatro Estações (primavera, verão, outono e inverno). Uma armadura de incomparável fortaleza para a realização de uma completa e inaudita viagem pela formosura da natureza.

Ao musicar o Inverno, Vivaldi extrai da chuva cada sensação, traduzindo os múltiplos sentimentos dessa estação. E, nessa caminhada, expõe o agitado tremor da neve prateada, passando pelos respingos de brisa envolvente até chegar o vento siroco, que sopra do Saara o seu hálito quente. Um concerto de arrebatadora eloquência, incorporando ternura e violência, agitação e sonolência, rispidez e benevolência.

Cá estamos nós, entre nossos pares, como que auscultando um sussurro dos ares. Algo capaz de nos embevecer, que a gente sente antes de ver. Quando as nuvens se aglomeram, nossas veias se empoderam. A terra abre o umbigo e exala um perfume antigo. A terra, poderosa maestra, rege a invisível orquestra. O povo sorri e fica mais terno para celebrar o inverno. Pela chuva, no mastro do sertão, tremula a bandeira da gratidão!

não houve comentários

Deixe seu comentário:

Please enter your comment!
Please enter your name here

Sair da versão mobile