Hoje é dia de escrever, com a alma em pé, delicados fonemas de amor e fé: estamos no dia internacional da mulher! Para celebrar essa tocha de vitória, urge que mergulhemos no oceano da história. Urge que percorramos um itinerário superior e fino, como quem migra do humano para o divino. Urge ressuscitar o cantante menino para exaltar a força do feminino.
Desde o nascimento das antigas civilizações, o feminino é um princípio cósmico de profundas dimensões. Figuras como Ishtar, Ísis e Deméter, povoavam os céus da imaginação: eram deusas mães, senhoras das águas e dos grãos. Avançando para além de personagens, eram metáforas vivas de um mundo prenhe de mensagens.
Despiciendo romantizar o “matriarcado”, mas é inegável que cumpriu um papel estrelado: revelar o poder da fertilidade e o reconhecimento à sua essencialidade. Depois, a história endureceu e se enfureceu: à força bruta, leis, heranças e fronteiras passaram a ser objetos de disputa. Uma realidade era desenhada com as tintas da propriedade e da espada.
Em sociedades patriarcais, o feminino foi confinado às masmorras morais. Presa ao doméstico espaço, a mulher revelou sua habilidade de aço. Desenvolveu um meio para driblar os grilhões do patriarcal poder: a arte de, por dentro, sobreviver. E, sobretudo, florescer! Se lhe fecharam as praças e os púlpitos sociais, ela ampliou a geografia dos quintais; se lhe vedaram acesso à palavra pura, ela usou pseudônimo para produzir sua escritura.
A Idade Média, com suas sombras e clarões, conheceu mulheres que foram bibliotecas e brasões. Desafiaram invernos e verões. Algumas ao altar foram elevadas, outras no pátio do medo foram queimadas. Espelharam-se nos rios, sinuosos guerreiros, que silenciosamente esculpem desfiladeiros.
Nas desafiantes avenidas da modernidade, eis que surgiu uma formosa dama de nome liberdade. E a mulher conheceu o pico da Iluminação. Eclodiram vigorosos movimentos de emancipação: direito ao voto, respeito no trabalho e avanços na educação. Mais do que jurídicas conquistas, houve um reposicionamento nas olímpicas pistas.
Estamos saboreando os frutos de uma nova avença: o feminino se reinventa sem pedir licença. Posta-se altivo, seja sob o sol ou a lua cheia, e lidera sem o peso de uma armadura alheia.
Pensamos o masculino e o feminino como antagônicos estelares. Ao invés, são polos complementares: em um, o compasso e o esquadro da razão; no outro, a emotiva e vulcânica erupção.
É hora de chamar o lírico menino, é hora de compor o mais belo hino, é hora de seguir a bússola que conduz ao melhor destino, é hora de reconhecer a supremacia do feminino. Com um banquete ou um simples café, celebremos com amor o Dia da Mulher.




