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O que me preocupa não é o grito dos maus; é o silêncio dos bons

É necessária uma cruzada — não armada, mas cívica e ética — que comece com uma atitude simples, porém poderosa: cobrar das autoridades constituídas o resgate dos bons costumes e da decência social

Foto: Stephen F. Somerstein/Getty Images

Vivemos tempos sombrios. Não é exagero dizer que nossa cultura enfrenta uma verdadeira degradação — um processo silencioso, porém devastador, que vem reconfigurando o que entendemos como certo e errado, justo e injusto, digno e vergonhoso. Trata-se de um projeto silencioso de inversão de valores que, se não for enfrentado, comprometerá não apenas o presente, mas o futuro de nosso país.

Observemos os fatos: candidatos a cargos públicos compram votos como quem compra mercadoria; e, uma vez no poder, locupletam-se com o dinheiro público, como se a coisa pública fosse extensão de seus bolsos. A ética, que deveria ser o pilar da política, tornou-se exceção.

Na arte, o talento ficou em segundo plano. Para fazer sucesso, não basta ter voz bonita, ser afinado ou dominar o próprio ofício. É preciso apenas exibir um rosto simétrico, um corpo escultural ou uma bunda grande — para despertar fetiches nos homens. A superficialidade estética suplantou a profundidade artística. O que resta é um culto ao efêmero, ao descartável, à imagem vazia.

No universo digital, a lógica se repete de forma ainda mais perversa. Quanto mais bobagem um dito “influenciador” profere, maior seu engajamento. Quanto mais absurda a afirmação, mais compartilhamentos, likes e visualizações. Em contrapartida, quem publica conteúdo relevante, que estimula o pensamento crítico, permanece à margem, invisível. A inteligência perdeu a audiência para o ridículo.

A imprensa, outrora guardiã da informação responsável, agora alimenta a valorização da violência. Manchetes sangrentas vendem mais do que reportagens sobre boas ações. O protagonismo midiático pertence, muitas vezes, a facções criminosas, que ocupam espaço como se fossem celebridades. A violência virou mercadoria de primeira linha, e a comoção social, combustível para audiência.

Nas universidades, o cenário é desolador. As faculdades, que um dia foram o sonho de consumo das juventudes, agora assistem a milhares de vagas ociosas — principalmente nas universidades públicas. Mais curioso (e preocupante): acadêmicos depredam e picham suas próprias instalações com slogans ideológicos cujo significado muitas vezes desconhecem, e tudo isso é aceito com passividade ou conivência pelas reitorias. A geração atual, em grande medida, já não quer sentar-se nos bancos escolares para estudar. O conhecimento, outrora valorizado como chave para o progresso, perdeu seu encanto diante de promessas ideológicas mais imediatas e menos exigentes.

E a escola, palco de outra tragédia silenciosa, tornou-se campo de batalha. Professores, que deveriam ser respeitados como agentes de transformação, vivem acuados, viraram alvo de uma juventude que cresceu sem regras dentro de casa. E, quando um professor sonhador tenta impor o mínimo de disciplina, quem aparece para agredir? Os próprios pais. Em vez de apoiar a educação, muitos a sabotam, transferindo para a escola a culpa por sua própria ausência e frustrações.

Diante de tudo isso, a sociedade assiste de braços cruzados, pacífica e inerte. Cultuamos, assim, a inversão de valores. E a degradação avança em velocidade preocupante.

Até onde chegaremos? O que restará para as futuras gerações deste país?

Não se trata de nostalgia de um passado idealizado, mas de um alerta legítimo. Quando o errado é celebrado, a violência ganha cada vez mais destaque na mídia e o certo é ridicularizado; quando a corrupção vence eleições e a honestidade é tachada de ingenuidade; quando o talento cede lugar ao corpo e o conhecimento ao entretenimento raso — estamos cavando o abismo sob nossos próprios pés.

Ainda há tempo, mas não muito. Os homens e mulheres de bem de todos os segmentos sociais precisam se unir com urgência. É necessária uma cruzada — não armada, mas cívica e ética — que comece com uma atitude simples, porém poderosa: cobrar das autoridades constituídas o resgate dos bons costumes e da decência social.

Que cada um faça sua parte: nas urnas, na imprensa, nas escolas, nas ruas, nas redes sociais, nas conversas de família. Porque a inversão de valores só vence enquanto os indignados permanecerem em silêncio.

“O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons” – A advertência de Martin Luther King contra a omissão moral

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