É imperioso refletir sobre uma peculiaridade expressiva da sociedade brasileira: a atração contumaz por aquilo que, no jargão popular do Nordeste, convencionou-se chamar de “garapa”, ou seja, tudo que se afigura como “fácil de obter”. Em compasso com essa inclinação, nota-se o apreço generalizado pelo famoso “0800”, gíria amplamente utilizada para designar vantagens gratuitas, o que se recebe “na faixa”, sem a exigência de qualquer contrapartida.
Contudo, a busca incessante pela “garapa” e pelo “0800” não sacia essa índole e fome. Desse ponto, o indivíduo passa a procurar a famigerada “carona”. Trata-se do oportunismo em seu estado puro: o ato de aproveitar-se de uma situação, de uma ideia alheia ou do patrimônio público para auferir benefício próprio, esquivando-se do trabalho e do custo inerentes à conquista legítima. E, dentro dessa lógica deturpada, pegar uma carona em um luxuoso jato executivo da Força Aérea Brasileira (FAB), cenário em que a mordomia se completa com o deleite de uvas roxas e docinhas servidas a bordo.
Ocorre que, ao unir todos esses vícios, um número vultoso de cidadãos acaba por cruzar o caminho do estelionatário. O fraudador, dotado de arguta percepção, identifica com facilidade a fraqueza daquele que adora a “garapa”, o “0800” e a “carona”. A partir dessa constatação, passa a oferecer vantagens financeiras irreais, alicerçadas única e exclusivamente na ganância de sua presa.
Empolgado e imerso na crença de que, como de costume, “se daria bem”, o alvo é enredado pelo clássico “171”, que lhe apresenta o “baludo” – o tradicional “golpe do baludo”. A vítima, inebriada pela cobiça, tem a plena convicção de que está tirando proveito de uma situação fortuita para encontrar dinheiro fácil. O ardil consiste no uso de maços de papel que simulam dinheiro autêntico (o “baludo”) para atrair a atenção e a cobiça do incauto.
Geralmente, os golpistas travestem-se de pessoas humildes ou de extrema ingenuidade, tática ardilosa para conquistar a confiança da vítima antes de consumar a fraude. A essência desse ilícito é o engano, guardando estreita similaridade com o histórico “conto do vigário”, no qual a vítima entrega seus bens ou valores na vã esperança de um ganho fácil e, sobretudo, desonesto.
Eis, em síntese, a exata tônica do que fez Daniel Vorcaro, o paladino do Banco Master. Profundo leitor dessa fratura na alma brasileira – na qual tantos anseiam por tirar vantagens imorais -, ele soube explorar essa fragilidade que atinge, inclusive, altas autoridades palacianas e judiciais. Ao fim e ao cabo, todos caíram no ardil do “baludo”.
A vaidade e a malandragem, que longe de serem um monopólio carioca revelaram-se quase uma regra comportamental de muitos, fizeram com que todos perdessem de forma retumbante. E, lamentavelmente, o maior prejudicado nessa torpeza foi o Brasil de todos os brasileiros.




