O episódio envolvendo o deputado federal André Fernandes (PL), flagrado deixando sacos de lixo em frente ao Paço Municipal de Fortaleza para simular uma denúncia sobre a sujeira na cidade, vai além de uma crítica política comum e merece uma reflexão mais cuidadosa.
É fato: Fortaleza enfrenta, sim, problemas recorrentes de limpeza urbana. A população percebe, cobra e vive essa realidade no dia a dia. Negar isso seria desonesto. No entanto, o caminho escolhido pelo parlamentar levanta um ponto essencial: o método da denúncia também precisa ser avaliado.
Ao produzir a própria cena que pretende criticar, o deputado ultrapassa a linha da fiscalização legítima e entra no campo da encenação. Não se trata apenas de mostrar um problema existente, mas de recriá-lo artificialmente para gerar impacto. E isso traz implicações importantes: distorce a percepção da realidade, compromete o debate público e ainda passa uma mensagem equivocada sobre o próprio comportamento cidadão diante do lixo.
A política atual, cada vez mais guiada pela lógica das redes sociais, valoriza o impacto visual e o engajamento imediato. André Fernandes domina essa linguagem. Mas há uma diferença clara entre comunicar bem e transformar a crítica em espetáculo. Quando a forma se sobrepõe ao conteúdo, o risco é esvaziar a discussão e afastar o foco das soluções concretas.
O papel de um agente público é fiscalizar, denunciar e cobrar, mas sem recorrer a práticas que, ainda que simbólicas, reforcem exatamente o problema que se quer combater. Fortaleza precisa de debate sério sobre limpeza urbana, com responsabilidade, propostas e compromisso com a verdade.
Transformar lixo em cena pode até gerar curtidas. Mas não resolve o problema, e ainda empobrece o debate.
