A recente declaração da ministra Cármen Lúcia, ao afirmar que “não faz nada errado” e que suas decisões estão dentro da lei, surge em meio a um ambiente que vai muito além de um caso específico. Ela escancara algo mais profundo: a crescente tensão entre instituições e, principalmente, o abalo na confiança do povo brasileiro.
Durante muito tempo, parte significativa da sociedade acreditou que os poderes da República, Executivo, Legislativo e Judiciário, funcionavam como pilares sólidos da democracia. Hoje, essa percepção parece rachada. Não por um episódio isolado, mas por uma sequência de escândalos que atravessam governos, partidos e instituições ao longo de décadas.
A corrupção no Brasil não é novidade. O que mudou foi a forma como ela é percebida. Antes, havia indignação acompanhada de esperança. Hoje, o sentimento predominante em muitos brasileiros é o cansaço e, pior, a descrença.
E quando a população deixa de acreditar nas instituições, o problema deixa de ser apenas político e passa a ser estrutural.
O debate público, por sua vez, parece girar em torno de 2026. Nomes, alianças, estratégias eleitorais. Mas e o essencial? Onde estão as propostas concretas para enfrentar a corrupção de forma sistêmica? Onde estão os planos para fortalecer os mecanismos de controle, garantir transparência e punir com rigor, independentemente de quem seja o envolvido?
O Brasil não precisa apenas de novos discursos. Precisa de novas práticas.
Reconstruir a confiança exige mais do que declarações de legalidade. Exige coerência, previsibilidade nas decisões, respeito às instituições e, sobretudo, exemplo. A lei precisa ser não apenas aplicada, mas percebida como justa e igual para todos.
A imprensa tem papel fundamental nesse processo, investigando, cobrando e informando com responsabilidade, sem cair em paixões ou narrativas fáceis.
A classe política, por sua vez, precisa entender que eleição não pode ser um fim em si mesma. É apenas o começo de uma responsabilidade maior.
E o povo? O povo precisa voltar a acreditar que vale a pena participar, fiscalizar e exigir.
Porque, no fim das contas, nenhuma democracia se sustenta apenas em estruturas formais. Ela depende, acima de tudo, da confiança.
E essa, uma vez perdida, não se recupera com palavras. Se reconstrói com atitudes.
