Home 1 Minuto com Sérgio Machado Saúde mental nas escolas: um alerta que não pode mais ser ignorado

Saúde mental nas escolas: um alerta que não pode mais ser ignorado

A família também desempenha um papel essencial. No entanto, muitos jovens relatam sentimentos de solidão e falta de acolhimento

Foto: Werther Santana/Estadão

O ambiente escolar, historicamente associado ao aprendizado e à formação cidadã, vem revelando uma realidade preocupante: o avanço dos problemas de saúde mental entre adolescentes. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, do IBGE, mostram um cenário que exige atenção urgente de famílias, educadores e do poder público. Cerca de três em cada dez estudantes brasileiros entre 13 e 17 anos já tiveram vontade de se machucar de propósito, enquanto 42,9% relatam sentir-se irritados, nervosos ou mal-humorados com frequência. Mais do que números, esses dados revelam uma geração emocionalmente sobrecarregada, muitas vezes sem o suporte necessário para lidar com suas angústias.

A deterioração da saúde mental entre jovens é um fenômeno complexo e multifatorial. Está relacionada a questões como ansiedade, depressão, conflitos familiares, bullying e dificuldades de pertencimento social. Soma-se a isso o impacto ainda presente da pandemia de Covid-19, que intensificou o isolamento, rompeu rotinas e fragilizou vínculos importantes. Nos últimos anos, o Brasil registrou um aumento significativo nos casos de lesões autoprovocadas entre adolescentes, evidenciando a gravidade da situação e a necessidade de respostas mais efetivas.

Nesse contexto, a escola ocupa um papel central. Ao mesmo tempo em que pode refletir tensões sociais, como desigualdade e pressão por desempenho, também deve ser parte fundamental da solução. No entanto, ainda há uma lacuna importante: menos da metade dos estudantes tem acesso a apoio psicológico no ambiente escolar. A ausência desse suporte contribui para que sinais de sofrimento, como irritabilidade constante, isolamento, queda no rendimento e mudanças de comportamento, passem despercebidos ou sejam subestimados.

As diferenças de gênero também chamam atenção. Meninas tendem a apresentar índices mais elevados de tristeza, ansiedade e sofrimento emocional, enquanto meninos, mesmo relatando menos esses sentimentos, estão mais associados a desfechos mais graves. Esse recorte reforça a necessidade de políticas públicas sensíveis às diferentes realidades e perfis.

A família também desempenha um papel essencial. No entanto, muitos jovens relatam sentimentos de solidão e falta de acolhimento. Uma parcela significativa afirma sentir que ninguém se preocupa com eles, o que evidencia um vazio emocional que agrava ainda mais o quadro. Paralelamente, fatores sociais como o uso excessivo de redes sociais, a cultura da comparação e a pressão por resultados contribuem para um ambiente emocionalmente desgastante.

Diante desse cenário, torna-se urgente transformar o debate em ação concreta. Investir em saúde mental nas escolas significa ampliar o acesso a profissionais especializados, capacitar educadores para identificar sinais de sofrimento, promover educação emocional e fortalecer o diálogo entre escola, família e comunidade. Além disso, é fundamental romper o estigma em torno do tema e incentivar uma cultura de escuta e acolhimento.

Os dados apresentados não são apenas estatísticas. Eles representam jovens reais, com histórias e desafios que muitas vezes não encontram espaço para serem compreendidos. Ignorar essa realidade é comprometer o futuro de uma geração. A escola ensina conteúdos essenciais para a vida, mas é cada vez mais necessário fortalecer também o cuidado com as emoções. Afinal, não há educação de qualidade sem saúde mental.

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