O envenenamento de gatos na Rua Dias Ferreira não pode ser tratado como mais um caso isolado. É crime. É covardia. É o retrato cruel de uma cidade que, muitas vezes, presencia o sofrimento animal e escolhe o silêncio.
Quixeramobim está adoecendo na sua capacidade de sentir compaixão. Todos os dias surgem relatos de abandono, fome, espancamentos, atropelamentos e maus-tratos contra animais de rua. O mais revoltante é que quase sempre há testemunhas, comentários, indignação momentânea… e depois, nada. A vida segue como se aqueles seres não sentissem dor.
Sentem. E muita.
Um animal abandonado não é apenas um problema animal. É um problema humano, social e moral. Uma cidade que normaliza a crueldade perde parte da sua humanidade.
A coluna já não consegue mais assistir calada a essa realidade. Passou da hora de as autoridades acordarem. Não faltam leis. Falta ação. Falta prioridade. Falta coragem para enfrentar quem pratica crimes contra animais.
O Brasil já possui legislação rigorosa. A Lei Sansão aumentou a pena para maus-tratos contra cães e gatos, podendo chegar a cinco anos de prisão, além de multa. O próprio Governo Federal reconhece hoje os direitos animais como política pública nacional.
Enquanto isso, alguns estados mostram que é possível avançar. O Paraná, por exemplo, tornou-se referência nacional ao criar uma Superintendência-Geral de Proteção Animal, ampliar campanhas educativas, fortalecer denúncias e investir em programas contínuos de castração e acolhimento.
Lá entenderam algo simples: proteger animais também é proteger pessoas.
Castração permanente, bairro por bairro. Abrigos organizados. Atendimento veterinário básico. Campanhas de adoção. Canal eficiente para denúncias. Punição exemplar para criminosos. Divulgação ampla dos casos e das condenações. Tudo isso reduz abandono, violência e sofrimento.
Não é impossível. É decisão.
Quixeramobim precisa urgentemente de um programa sério de proteção animal. Um local digno para acolhimento dos animais de rua. Um serviço contínuo de castração, começando justamente pelos animais abandonados. Uma força-tarefa entre Prefeitura, Ministério Público, Câmara Municipal, polícia, protetores independentes e sociedade civil.
E a população também precisa parar de achar que denunciar “não adianta”. Adianta, sim. O silêncio protege o agressor.
Quem envenena um gato hoje revela um nível assustador de perversidade. A crueldade contra animais não nasce do nada. Ela é reflexo de uma sociedade que vai perdendo a capacidade de sentir, respeitar e proteger a vida.
Não estamos falando apenas de cães e gatos.
Estamos falando do tipo de cidade que queremos deixar para os nossos filhos.
Porque desenvolvimento não é apenas obra, asfalto e discurso bonito. Desenvolvimento também é humanidade, consciência e respeito pelos seres mais vulneráveis.
E enquanto houver animais morrendo envenenados pelas ruas, abandonados à própria sorte e vítimas da indiferença coletiva, Quixeramobim continuará carregando uma ferida moral que nenhum silêncio conseguirá esconder.
Os animais estão pedindo socorro.
E a nossa consciência também.
