A Polícia Federal (PF) informou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que alterações promovidas pelo então governador Cláudio Castro (PL) na direção do Rioprevidência, em articulação com o banqueiro Daniel Vorcaro, teriam facilitado investimentos de aproximadamente R$ 3,7 bilhões em produtos financeiros ligados ao Banco Master.
As informações constam na decisão do ministro André Mendonça, do STF, que autorizou nesta terça-feira, 26, a oitava fase da Operação Compliance Zero. Esta é a segunda vez, em menos de 15 dias, que a PF cumpre diligências relacionadas a Castro.
De acordo com as investigações, houve uma mudança considerada “estratégica” na cúpula do Rioprevidência, fundo responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões dos servidores estaduais, pouco antes do início dos aportes financeiros destinados ao banco controlado por Vorcaro.
A PF sustenta que a proximidade entre Castro e o banqueiro permitiu a indicação de dirigentes para cargos considerados centrais dentro do fundo previdenciário. Segundo os investigadores, essas nomeações favoreceram uma rápida autorização para operações envolvendo o Banco Master, além da realização de aplicações financeiras sem análise técnica adequada e em desacordo com normas internas.
A Operação Compliance Zero apura um suposto esquema bilionário envolvendo fraudes financeiras, corrupção, lavagem de dinheiro e tentativa de obstrução da Justiça relacionado ao Banco Master, atualmente liquidado. Daniel Vorcaro está preso em Brasília.
As investigações se concentram nos investimentos realizados com recursos do Rioprevidência. Conforme a PF, entre outubro de 2023 e julho de 2024, o fundo aplicou R$ 970 milhões em Letras Financeiras do Banco Master. Depois, entre dezembro de 2024 e outubro de 2025, outros R$ 2,01 bilhões teriam sido destinados a fundos estruturados ligados ao mesmo grupo econômico.
Segundo a decisão judicial, há suspeita de que esses novos produtos financeiros tenham sido utilizados para driblar restrições regulatórias impostas após os primeiros investimentos.
A PF afirma ainda que as mudanças na administração do Rioprevidência colocaram em posições estratégicas gestores favoráveis à liberação dos aportes. O documento cita os nomes de Deivis Marcon Antunes, diretor-presidente; Eucherio Lerner Rodrigues, diretor de Investimentos; Pedro Pinheiro Guerra Leal, gerente de Investimentos e Operações; e Fernanda Pereira da Silva Machado, responsável pelo Controle Interno e Auditoria.
Na avaliação dos investigadores, os dirigentes atuaram em desacordo com a política de investimentos do fundo, além de descumprirem regras legais e deveres básicos de prudência e análise técnica.
A decisão também menciona mensagens encontradas no celular de Vorcaro indicando que determinados investimentos dependeriam de “alinhamento político” com Cláudio Castro. Os investigadores apontam ainda coincidências entre reuniões realizadas entre os dois e a liberação dos aportes bilionários do Rioprevidência.
O texto cita encontros presenciais, aproximação política e mudanças administrativas no fundo previdenciário ocorridas paralelamente às operações financeiras. Segundo a PF, a relação entre Castro e Vorcaro teria ido além de contatos institucionais, incluindo reuniões reservadas, viagens internacionais e despesas pagas pelo banqueiro.
Os investigadores afirmam ainda que os investimentos continuaram mesmo após alertas emitidos pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ), pareceres técnicos contrários e restrições regulatórias.
Ao autorizar a nova fase da operação, o ministro André Mendonça declarou haver um “robusto conjunto de elementos” indicando possíveis irregularidades na condução dos investimentos. Segundo ele, há indícios de que as decisões não tenham sido motivadas por critérios técnicos, mas por uma relação considerada inadequada entre o controlador do Banco Master e autoridades ligadas ao Rioprevidência.
O advogado Carlo Luchione, responsável pela defesa de Cláudio Castro, informou que o ex-governador acompanhou o cumprimento das buscas “com serenidade”. O defensor também afirmou enxergar possível motivação política na operação, embora tenha ressaltado que se trata apenas de uma opinião pessoal.
