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Santo Antônio e o fogo da esperança

Enquanto o mundo moderno espanca a tradição, Santo Antônio conserva a indelével brasa da emoção do dia que encontraremos o par do coração. E a crença nessa avença pelos séculos avança: é uma coluna de imorredoura esperança

Junho me lembra estacas de aroeira organizadamente empilhadas para o acendimento da fogueira – cuja chama, além do corpo, aquece a alma inteira. É o 13 de junho e o santo português nos visita outra vez. Dito Antônio, é o padroeiro do matrimônio. Um santo alado, humilde e despojado. É o santo do laço verdadeiro, do amor feito braseiro, do véu casamenteiro.

Há algo de profundamente humano nessa celebração. Enquanto o mundo moderno espanca a tradição, Santo Antônio conserva a indelével brasa da emoção do dia que encontraremos o par do coração. E a crença nessa avença pelos séculos avança: é uma coluna de imorredoura esperança!

Santo Antônio de Pádua, sábio mestre aristotélico, viveu a radicalidade do amor evangélico. Diz a lenda, segundo as pessoas mais entendidas, que ele ajudava a encontrar coisas perdidas. E o povo, com seu olhar evoluído, estendeu isso ao coração perdido.

Como uma canção que se gesta, a fogueira é o coração dessa festa. Não é apenas fogo ou palha ou folhagem — é um estágio superior de linguagem. Quando acendemos, de Santo Antônio, a santa labareda, estamos falando uma língua de uma antiga alameda. A que nossos ancestrais praticavam, a que nossos avós falavam. É um ato de continuidade e de evoluções, de genealogia de vulcões, de pertencimento às mais caras tradições, de uma corrente que atravessa gerações. A chama sobe reta para as alturas, como uma prece com palavras puras. É como um grito silencioso de quem acredita que há algo além do visível, além do que podemos tocar ou do que parece impossível.

Há, nisso, uma beleza fundamental, quase mágica, quase sacramental. A fogueira decerto purifica — além do ar, a intenção de quem perto dela fica. Quando você coloca sua mão próxima daquele calor, sente o rosto queimado pelas chamas do amor. Você está, como Moisés, alterando a maré; realizando um robusto ato de fé; fazendo um ritual que desce da cabeça ao pé. Está dizendo à sua secreta gruta: “Há um santo que me escuta. Posso com alegria dizer: há uma força maior que me vê. Minha vida pode ser doce e fraterna, pois minha solidão não é eterna.” E essa crença, mesmo que não resulte em casamento, já é uma vitória contra o desejo daquele momento.

A tradição do Santo casamenteiro é fabulosa, ao mesmo tempo tocante e curiosa. As moças solteiras devem pedir ao santo, devem fazer promessas e – se desatendidas – devem até mesmo “castigar” sua imagem em público ou às escondidas. É uma prática que, para o povo, revela intimidade, um contato estreito e de muita familiaridade. É uma relação lastreada na esperança, desprovida de medo e revestida de confiança. É como conversar com um avô que você sabe que o ama, mesmo que às vezes não faça exatamente o que você reclama.

O casamento, para o povo que celebra Santo Antônio de maneira especial, não é apenas um contrato legal ou uma cerimônia social. É a promessa de que você contará com a alegria, de que alguém escolheu você e sua saudável companhia.

Há algo de revolucionário à beça em manter viva uma tradição como essa. Num mundo que nos diz para sermos o mais racional possível, para desconfiarmos do invisível, a fogueira de Santo Antônio é um ato de rebeldia incrível. É dizer: “Eu acredito em possibilidades milagrosas. Eu acredito em um santo que faz obras radiosas. Eu acredito na singeleza de uma flor e na fulgurância do amor.” E essa teimosa crença, contra todos os desenganos, é o que nos mantém humanos.

E enquanto houver junho, ou a solidão de um momento, e um coração para acender uma fogueira e sussurrar um pedido ao vento, Santo Antônio surgirá como sinal de alento. Um Santo de coração lindo; descalço e pobre, ouvindo. E sempre rindo.

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