Há silêncios que valem mais do que toda a eloquência do mundo — e um deles é aquele que antecede a voz pequenina que, do fundo de um corredor ou da beira de uma tarde, solta ao vento um suave “Vovô José!”. Não é apenas um nome que se pronuncia: é uma senha que destranca algo tão antigo quanto a própria condição humana. O amor avoengo recebe uma intangível licença para praticar a extravagância. E nesse sacro instante o tempo perde a linha, o relógio esquece o ponteiro e algo se move no peito que nenhuma teologia soube ainda nomear com justeza. É a fração em que a alma saltita em fé! — não a fé dos altares necessariamente, mas aquela mais primitiva e talvez mais verdadeira, a fé de quem descobre que ainda há razão para continuar, que o mundo não terminou enquanto houver uma voz pequena chamando por nós. O Dia dos Avós, que o calendário reserva com justa solenidade, é na verdade uma data que transcende a marcação: ele celebra o instante em que a vida decide voltar sobre seus próprios passos e, em vez de seguir apenas para frente, curva-se para baixo, para o colo, para a mão madura segurar a mão que ainda vai amadurecer.
Viceja daí um amor sem ânsia — expressão que diz tudo porque se recusa a dizer mais do que precisa. Não é o amor fogoso e fugaz dos jovens, que queima por enquanto e se consome por pressa; é o amor que já viu o bastante para saber que não há nada a provar, nada a conquistar, nada a reter à força. Vem de uma luz cheia de brisa, dessas que entram pela janela numa manhã de domingo e acendem a cozinha sem alarde. Vem de um ser que saiu da pia batismal e se derramou sobre a família como água benta que ninguém precisou benzer, porque já nasceu abençoada pela simples graça de existir. É assim o amor dos avós: imparável e incomparável. Avós envolvem, embalam, repetem a mesma receita e nela colocam, sem saber, todo o seu catecismo afetivo. O avô e a avó tornaram-se a própria geografia sentimental da casa.
Há, porém, uma reviravolta nessa história que os manuais de avós não previram — e que talvez seja a mais doce das surpresas. É a descoberta, inocente e recente, arrebatadora e perturbadora, de que se pode ser avô de quem não fala. De quem tem quatro patas, pelo em vez de pele, e olhos que comunicam sem uma única palavra tudo o que a linguagem humana jamais alcançará dizer. É uma cachoeira de doce emoção perceber que o pet que se enrosca no colo do vovô não o faz por acaso — escolheu-o, elegeu-o, e nessa eleição silenciosa há mais discernimento afetivo do que em muitas conversas que tivemos com seres ditos racionais. É um fenômeno sideral e astral, galático e glacial de derretimento azul do coração — assim se sente quem nunca imaginou um dia curvando-se para acariciar uma barriguinha peluda. E que esse gesto honesto poderia restaurar, em frações de segundo, toda a ternura que a vida profissional, as decepções e os anos haviam recolhido para longe. Os pets nos ensinam a dialogar apenas pelo gestual sentimental: um rabo que bate, um focinho que se enterra na palma da mão, um respirar compassado que adormece no peito de quem precisa. E talvez seja essa a revolução mais autêntica do Dia dos Avós contemporâneo: descobrir que o afeto dispensa consanguinidade e sobrenome, espécie ou linhagem. Exige apenas a inaudita calma da disponibilidade de alma.
É uma linda, fascinante explosão a de perceber que se é avô em mais de um sentido, em mais de uma espécie, em mais de um silêncio. É como se das placas geológicas do nosso corpo emergissem larvas ternas de um suave vulcão. Assim são esses afetos que pareciam adormecidos sob camadas de rotina e gravidade, e que, ao primeiro chamado – seja o “Vovô José!” da neta ou o gemido do pet à porta – irrompem com uma força que espanta até quem sempre soube que a carregava dentro de si. O desejo é de em um quadro eternizar cada um desses instantes: o instante em que a criança corre de braços abertos, o instante em que a menina de quatro patas deita a cabeça sobre o nosso joelho como se ali estivesse o centro exato do universo, o instante em que a avó sorri para os dois e, no sorriso, resume tudo o que a palavra “família” tenta dizer e nunca consegue dizê-lo por inteiro. Como olvidar o magnético sorriso daquele olhar?! Daquele olhar da criança que ainda não aprendeu a desconfiar, do animal que nunca precisou aprender?!
Nesse frágil segundo o avô reencontra em si mesmo alguém que pensava ter perdido há muito tempo. E talvez seja exatamente isso, no fim de tudo: o Dia dos Avós não celebra quem envelheceu, mas quem descobriu que o tempo não se mede em anos. Mede-se em mãos pequenas que se encaixam nas mãos grandes, em patas que repousam sobre peitos cansados, em vozes que nos chamam pelo nome mais doce que alguém já nos deu.
