Há algo de humano, denso e profundo no desempenho brasileiro ao longo das Copas do Mundo. Há itinerários alvissareiros nos troféus erguidos sob céus estrangeiros. Uma seleção que lavou nossa alma de prazer ao encontrar em si mesma a força para renascer. São histórias de homens que começaram tremendo e terminaram dançando e exibindo oferendas, de campanhas que pareciam fadadas ao esquecimento e se transformaram em lendas.
Quem poderia imaginar, naquele distante 1970, que a seleção que chegou ao México com dúvidas sobre sua aura mística se tornaria a encarnação da beleza futebolística? Os primeiros passos foram hesitantes, trôpegos, cambaleantes. Não havia uma certeza rondando aquele time que, aos poucos, foi se reconhecendo, se abraçando, se tornando uno e as multidões empolgando. Pelé ainda buscava seu ritmo, Tostão ainda se afirmando, e a defesa parecia frágil diante dos gigantes europeus que surgiam tratorando. Mas algo extraordinário acontecia a cada partida: o Brasil crescia, como uma semente desabrochando vida. Não era apenas questão de técnica — era alquimia, esse fenômeno fantástico que nasce da sinergia. Era o momento em que um grupo de jogadores deixava de ser uma seleção: se tornava uma família e espalhava larvas de emoção. Quando enfrentou a Itália nas quartas de final, o Brasil já não era o mesmo, esbanjava um charme especial. E quando levantou aquela taça dourada no palco dos mexicanos, levantava também a prova de que a superação é o mais belo dos dramas humanos.
Mas há outro Brasil que merece ser lembrado com igual devoção: aquele de 1994, que chegou aos Estados Unidos carregando o peso de toda uma nação. Não era o Brasil aureolado de magia, espargindo o futebol-arte que o mundo conhecia. Era um Brasil sem glamour aparente, mais pragmático, mais sofrido e diferente. As primeiras partidas, trem quase saindo do trilho, foram áridas, sem o empolgante e histórico brilho. Romário e Bebeto ainda buscavam entrosamento, a defesa parecia de frágil tez, e havia quem sussurrasse que talvez não fosse daquela vez. Mas Parreira, qual um ourives silencioso e culto, foi lapidando com paciência aquele diamante bruto. A cada jogo, a cotação subia e o Brasil um pouco mais se reconhecia. Contra a poderosa Holanda, o Brasil exibiu alinho e revelou uma garra capaz de destruir moinhos. Contra a Suécia, já era outro time na semifinal: mais maduro, confiante e genial. E quando, na final contra a Itália, ecoou em Los Angeles o gol de Romário, o Brasil sentiu um estalo extraordinário. A vitória é um tento que supera o talento. É insistência e persistência, é a vibrante emoção da reinvenção, essa capacidade de sofrer e ainda assim acreditar na superação.
Há também 2002, aquele ano mágico em que vimos o Brasil partir e chegar à Coreia e ao Japão como um time a se redescobrir. Ronaldo, Fenômeno nas nossas mentes, ainda se recuperava de lesões que pareciam permanentes. Ronaldinho pegava a estrada como uma promessa ainda não realizada. Olhando para os lados, a defesa inspirava cuidados. Os primeiros jogos foram tensos, sem aquela fluidez característica dos passos densos. Mas lentamente, como quem vai se recuperando, o Brasil foi despertando. Ronaldinho começou a fazer aquilo que só ele sabia: transformar o impossível em poesia. Ronaldo, aquele gigante que parecia ter perdido sua essência, reencontrou a si mesmo e despertou da sonolência. E quando chegou à final contra a Alemanha – aí, sim, Camaradas – o Brasil não era mais aquele time vacilante das primeiras rodadas. Era um time que havia aprendido a lutar, a sofrer, a acreditar. Dois gols de Ronaldo — um deles com aquela cabeça raspada que se tornou símbolo de renascimento — selaram o nosso destino naquele momento. O Brasil, forte e destemido, havia das cinzas renascido.
Este é o Brasil que povoa nossa memória: o que venceu e, apesar de tudo, venceu e entrou para a história. Que começou tremendo a mão e terminou com um inquebrantável coração. Foi criticado, duvidado, quase enterrado, e ainda assim, por seu valor, se levantou para ser glorificado.
Porque o futebol brasileiro nunca foi aula de matemática ou apenas expressões de técnica ou tática. Foi sempre sobre a capacidade de transformação: sacrifício como o sagrado ofício do coração. É a alquimia cheia de beleza que transforma dúvida em certeza. Alterar o começo vacilante para um final empolgante. É a história de um povo que aprendeu, através do futebol, que a verdadeira vitória tem sal e sol. O sal, substância vital, que à alimentação se revela essencial. Dá à comida um gosto que torna o cansado disposto. O sol, com seu universal clarão, sempre surge para nos libertar da escuridão. Eis a razão porque a copa agita a multidão: no futebol e na vida, sempre há espaço para a redenção.
