O debate sobre o direito ao voto das mulheres, considerado superado há décadas nos Estados Unidos, voltou a ganhar espaço em setores da direita americana. Figuras ligadas ao presidente Donald Trump passaram a defender ou simpatizar com propostas que restringiriam a participação feminina nas eleições, enquanto um projeto de lei que endurece as regras para o registro de eleitores avança no Congresso. A análise é da jornalista Letícia Messias, do O GLOBO.
Especialistas ouvidos pelo jornal afirmam que a revogação da 19ª Emenda da Constituição, que garantiu o voto feminino em 1920, é improvável. No entanto, alertam que o simples fato de o tema integrar o debate político já representa uma mudança significativa no cenário americano.
A discussão ganhou força após o secretário de Defesa, Pete Hegseth, compartilhar uma entrevista do pastor conservador Doug Wilson, que defende uma sociedade patriarcal e afirma que o voto deveria ser exercido pelas famílias, representadas pelos maridos. Embora o Pentágono tenha declarado que Hegseth apoia o direito das mulheres ao voto, ressaltou sua proximidade com o religioso.
Outras figuras influentes também fizeram declarações semelhantes. Elon Musk já apoiou publicações que questionam o sufrágio universal, enquanto aliados de Trump, empresários e influenciadores conservadores passaram a defender modelos em que apenas chefes de família votariam ou sugeriram que conceder o voto às mulheres teria sido um erro.
Para pesquisadores, esse movimento está ligado ao fortalecimento do nacionalismo cristão e de pautas conservadoras sobre gênero, impulsionadas durante a ascensão de Trump. O discurso também tem repercutido fora dos Estados Unidos, inclusive no Brasil.
Além da retórica, preocupa especialistas o avanço do projeto Save Act, prioridade do governo Trump antes das eleições de meio de mandato. A proposta exige que eleitores apresentem documentos para comprovar a cidadania no momento do registro eleitoral.
Críticos afirmam que a medida pode dificultar o voto de milhões de americanos, especialmente mulheres que mudaram de sobrenome após o casamento, além de pessoas trans, militares e cidadãos que não possuem documentos como passaporte ou certidão de nascimento facilmente acessíveis. Estudos citados pelo O GLOBO indicam que milhões de eleitores poderiam enfrentar obstáculos para exercer o direito ao voto.
Embora a revogação da 19ª Emenda seja considerada politicamente inviável, especialistas avaliam que estados conservadores poderiam aprovar leis criando restrições indiretas ao eleitorado feminino, dependendo posteriormente da interpretação dos tribunais.
Pesquisadores destacam ainda que, desde o primeiro mandato de Trump, decisões da Suprema Corte e mudanças promovidas pelo governo têm ampliado o espaço para pautas conservadoras relacionadas aos direitos das mulheres, reforçando o alerta de que conquistas históricas podem voltar a ser questionadas em momentos de crise política.
